Destacado

Conselho

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Se eu pudesse
uma só vez na vida
servir de conselheira
à estas jovens raparigas
que buscam um grande amor,
a uma delas me atreveria:

– Apaixona-te guria
antes de mais nada,
por uma alma engraçada.
Quando a paixão sucumbir
e acredites, ela sucumbirá,
(não culpes a mim e sim ao destino)
ainda assim terás quem a faça rir.
Alguém que goste de ler
Baudelaire, Hilda Hilst, Calvino
não importa
tudo leva a crer
que nas tardes morosas
quando as palavras estiverem a morrer
será um João Guimarães Rosa
quem novamente lhes aproximará.

Mas se é amor que tu procuras
então escolhas alguém
Guria
que te toques com ternura
que te olhes com loucura
Alguém que te deixarás partir
Se mesmo assim quiseres ir
escolhas alguém…
que escreva poesia.

Anna Claudia- Out/2014

Cena de Amour- França- 2012

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Mise en abyme- Chá de Loucos

“Quer-me parecer que nunca falaste com o tempo”!
Em sua inocência
Ela não percebeu a ironia
Que o tempo é um coelho branco
Lembrando que nos resta tão pouco
E se ainda tardará
“É sempre hora do chá”
Já dizia
O chapeleiro louco.

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Mise en abyme- Anna Claudia Fernandes/ Out 2015
Chá de Loucos.

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Tormenta

É como se eu ainda sentisse
O cheiro da palha benta
as orações ao pé da cama
O dormir de ladinho por recomenda
e tantas outras crendices
nas noites de tormenta.
A Maria de minha infância
volta e meia, nestas noites, volta
e me conforta baixinho dizendo que a tempestade vai passar
e que não será preciso mais cobrir os espelhos
pois serão neles que eu irei reencontrá-la.
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Páscoa

Resguardados os ramos,
a macela colhida
a pedra removida
Ele não está aqui
entoa o sacristão
Incita-me a ressurreição
sou a ovelha que o pastor exorta
Tenho ganas de voltar a vida
ainda que,
meio alquebrada
meio judiada
meio morta.

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Da Criação

O Senhor fez então o firmamento¹
e para colorir a imensidão
Criou os pássaros, lamentando-se em um primeiro momento
de não fazê-lo por primazia
Tão bela, perfeita e pura
resultou sua criação
No entanto, passado o tal arrependimento
viu Deus que ficou bom
Assim mesmo, em harmonia
primeiro os céus
Depois os anjos
vejam que em nenhum momento
Citou ele a clausura.

1- Passaram-se a tarde e a manhã; esse foi o quinto dia.

liberty

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Temperos

Que segredos esconder-se-ão
no sorriso desta moça brejeira
Por trás destes tantos temperos
envolta por aromas e cheiros
O gengibre, o tomilho, a cidreira
O anis, a hortelã, o açafrão.

Que segredos esconder-se-ão
por trás destes sentimentos
Disfarçados em condimentos
cada porção, cada pitada

O Cardamomo, a noz moscada
o Coentro, o manjericão.

Da pimenta a erva doce
Do louro ao alecrim
Ah, se teus sabores a mim
Confiados
Devolveria-os ainda mais acentuados
E em troca destas especiarias:
Os teus segredos revelados.

poçoes

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Casa das Marias

 

Em uma família com muitas Marias nasci Ana

Homenagem a avó que também Maria era

E entre Marias, Anas,  Mulheres

Em comum a todas elas, a espera.

Esperava Antônia o marido que partira

Esperava Graça. Era menina. Maria seria.

Esperava Luisa pelo amor que não viera.

Glória esperava pelo beijo apaixonado

Cecília tão somente um vivente pra casar

Mariana esperava pois o padre alertava

(Com o olho arregalado)

O mundo em breve vai acabar

E o filho não vingado Rosa esperava e esperava.

Tereza esperava ser professora

Dona Maria Tereza repetia baixinho

Enquanto ajudava a mãe na máquina de costura

E cosendo envelhecera

O sonho esmaecera

Da espera a loucura

Cresci com mulheres que esperavam

Fascinada em meio a  tanta Maria

Embora com o  temor a espreitar

De que também eu esperaria.

Dizem que quem espera sempre alcança

(uma autoajuda a esperança)

Apesar de  tudo  toda Maria sorria

Mesmo junto  a dor

Mesmo junto a aflição

Mesmo junto a agonia

Aprendi  que isto as fazem

verdadeiras

Marias

Guerreiras

Perdem batalhas

Seus filhos

Amores

Mas os sonhos

O brilho

As cores

Renascem a cada dia.

Mulheres de todos os nomes

Mulheres de todas as dores

Sempre sorriem

Anjos sem asas

Esperando dias melhores

Mulheres

Esperando

Sorrindo

Como as Marias de minha casa.

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Do Criador

Quando ando por teus caminhos
teus parques, tuas praças
Tuas avenidas
por estas pessoas multi coloridas
Que formam este mosaico curioso
faz-me bem constatar
Que aqui, por estas mesmas calçadas
estas escadarias, passeios
Alguém com os mesmos anseios
tuas vias esteve a cruzar.

Quando em meio a este torvelinho
de cores, sons e cheiros
Ainda assim sinto-me sozinho
faz-me bem pensar
Que por estas mesmas alamedas
estes becos, estas veredas
Dividindo nossas angústias
aqui, por estas mesmas ruas
Um dia também passou
um poeta passarinho.

mario

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Tempo de Voltar

DE VOLTA PRA CASA

O primeiro conselho para o resto de nossas vidas:

Hoje , depois de uma longa jornada, sem alento, sem destino, bateu-me saudade quando menino, deu-me vontade de voltar, um pouco tarde, talvez, notei, que o caminho de volta não traz nenhuma novidade, só traz dor, só traz saudade.
Respirei
Desejei-me sorte
Encorajei-me:
Serei forte
Voltei.
Era manhãzita como diz o povo lá do sul, ao longe vi meu pai em meio a plantação, sorriu-me tirando o chapéu em um cumprimento tão exagerado, achei engraçado, bobo meu pai, fazia-me rir em guri, seu olho tão azul, verde ficava, se o tempo para chuva virava, meu pai sorria, enquanto sumia, dissipando-se na cerração.
Continuei.
Minha casa, a estância. Ouço nossos gritos ecoando pelos corredores, pelos salões, o quarto de costura. Corríamos felizes com nossas brincadeiras por toda ela, havia no entanto a sala de leitura, que eu mantinha certa distância por conta de um segredo . Ao topo da lareira, em um retrato austero, meu avô fitava-me severo e posso jurar que em um dado momento, deu-me ele uma piscadela. Não riam-se agora, à época eu realmente tive medo.
Parei.
Os gritos vão se esvaindo, vejo um vulto devagarinho subindo, a grande escadaria que dá para nossos antigos aposentos. Escondo-me atrás da cortina a tempo de ver uma menina com olhinhos transbordando sentimentos. Quem é ela? Parece-me familiar. Entra no quarto que era meu e do irmão como nos a procurar. Reconheço-a enfim. É ela, minha mãe. Mas é menina. Como pode? Entendi. Também ela precisou voltar.
Chorei.
Já se dizia, nos livros poéticos ,lá na Sagrada Escritura, que para tudo na vida há um tempo.
Tempo para amar, tempo para odiar.
E não importa qual seja o seu momento
quando a vida mostrar-se demasiado dura
Seja forte
Respire e simplesmente
Volte.

(As vezes faz-se necessário para poder continuar).

Da síndrome…

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A mão envelhecida
troca a água do bebedouro
Com que cuidado limpa o poleiro
quanta dedicação a ele conferida
Sua cabecinha emplumada
não concebe o cativeiro
espia, admira-se, aquiesce
e com seu lamento, agradece
o pequenino refém de Estocolmo.
Sonha em voar sem destino
enquanto aguarda a arrumação
quase pôde sentir o vento
ao dar uma cabriola
Afasta-se a mão
o pequeno desperta
entre as varetas vê o mundo sozinho
ignora suas asas
e mesmo a portinhola
há muito aberta.

Leviatã

Havia na terra de Uz um homem que andava só
Arrastava-se a beira do caminho
Descalço, desnudo, faminto
Ao vento, sereno, relento
Sem eira, na beira, no pó 
Compreendo seu desatino
Pois também ando sozinho
Me esgueirando, escondendo, escoando
Murchando, mirrando, morrendo
Atravessando meus dias de Jó.

Leviatã- AnnaClaudia- Dez2016

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E quem não gostaria de voltar a ser criança
brincar de esconde-esconde, trava-línguas, pega-pega
Pula-sela, amarelinha, cabra- cega
voar, além do voo do tempo
Empinar pipa sem vento
e não perder a esperança.
#annaclaudia/ abril-2016

p.s: Papa e filhos de presidiários das cidades de Bari e Trani que foram ao Vaticano em 30/05/2015. A mensagem de Francisco?
“Nunca deixem de sonhar”.
A minha: “Nunca deixem de ser crianças.” 12985346_1278914208805268_2826203701153082814_n