O velho e bom Natal

Talvez este não seja bem o natal planejado e o velho sonho de pelo menos passar um natal em glamour ainda não seja desta vez. Ter que aguentar os parentes inconvenientes com suas perguntas chatas e indiretas cortantes mais um ano e ser o alvo predileto de frustrados de plantão não estava sendo aguardado ansiosamente nos rabiscos da última folhinha do ano. Mesmo que sua vontade seja a de subir em cima da mesa e gritar para todos quanto você ganha, há quanto tempo não transa e sim você já teve um relacionamento homossexual , satisfazendo assim a curiosidade mórbida e evitando um monte de perguntas cretinas durante toda a noite, mesmo isto ainda é melhor quê. Você teve que trabalhar até o meio dia pois o estulto do seu chefe , insensível aos seus argumentos de que não teria nada para se fazer em uma manhã véspera de feriado e não dando o braço a torcer mesmo com você lá batendo a tampa da caneta insistentemente sobre a mesa por horas como em um protesto mudo e raivoso. Você saiu fula da vida e teve que esperar quase uma hora para o seu ônibus passar porque sim, hoje é véspera de feriado, e sim, os ônibus tiveram seus horários reduzidos pois pela lógica, muitos emendaram o feriadão, não necessitando do meio de transporte coletivo e esta constatação fez você emanar uma nova descarga de ódio ao seu patrão, mesmo que involuntariamente, visto que você é uma pessoa do bem. Humana, todavia. Você teve que passar uma vez mais no supermercado mesmo tendo perdido três horas lá dentro no dia anterior providenciando toda a lista de compras. Você teve que ainda voar ao shopping center para comprar uma lembrancinha para o amigo do irmão da namorada de seu primo que foi incluído de última hora na lista de convidados da ceia, que claro, será em sua casa. Você chegou em casa acalorada, suada, despenteada e encontrou ela em pé de guerra, casa esta que você passou todo o final de semana anterior faxinando e todos os dias da curta semana retocando. Você teve que dar banho nas crianças, passar a roupa do maridão, descascar batatas em profusão, empacotar mais presentes ( de onde eles surgem?) Ah, claro, dos intervalos de almoço e fugidinhas ao fim do expediente. Você teve que desmarcar a hora na manicure e o cabelo levou apenas um jato rápido de secador pois há comida a se preparar, uma ave para assar, convidados a esperar, sorrisos a distribuir, caridade para se fazer, crianças a se olhar, todo o amor do mundo para se demonstrar, afinal é natal. Mas eu garanto, tudo isto ainda é melhor quê. Se o seu natal não é o natal dos seus sonhos eu repito, se você trocaria a sua mesa com louças de todas as cores por uma festa em um restaurante badalado, a sua família todinha por uma ceia em Nova York e o seu cunhado beberrão pelo abraço do Mickey Mouse na Disney, lembre-se que ainda assim, é melhor quê.  Ouvimos muito em autoajuda que não devemos nos acostumar com o que não nos faz felizes. Concordo desde que a situação seja realmente aflitiva, triste e sufocante. Ficar fantasiando com o que não se tem e achar que tudo o mais é melhor do que você possui é deplorável. Talvez seu marido não seja o Brad Pitt e não consiga a levar para um jantar romântico em Paris mas com certeza mesmo aquele presente tosco que ele lhe comprou foi dado com o coração dentro do que ele melhor pode conceber. Talvez a ceia não tenha quitutes finos, que diabos, as nozes e amêndoas estão pela hora da morte este ano, mas todos repetirão seu arroz a grega, receita do Mais Você. Talvez seus parentes também não sejam os mais refinados do mundo, mas ainda assim são os seus familiares e que lhe apoiarão quando precisares. Isto é o que se espera, pelo menos. Ainda assim é melhor do que se passar só, sem ninguém, sem esperanças, sem capacidade de sonhar.  A vida é nuvem passageira, já dizia uma música (brega) e no natal seguinte muitos dos que criticamos hoje podem não estar mais conosco. Então, aproveitamos os nossos e aproveitamos o que temos, ainda que o brinde seja em taças de plastico, a farofa com uvas passa e a salada de batatas com maionese Hellmann’s. Ainda assim é melhor do que sem. Feliz Natal!

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Foto Google.

A Mulher Inha

Elas não tiveram suas informações coletadas no último censo demográfico. Pelo menos não de forma a serem identificadas facilmente após uma consulta ao banco de dados e também não chamam suspeita sobre si a primeira vista. Mas ao um simples gesto inocente como abrir a boca ou dirigir um olhar eis que ela se revela: a mulher inha. A mulher inha não tem vida própria. Vive a vida dos outros.  Melhor dizendo, das outras. Sabe quem foi para cama com quem, quem é gay, quanto fulana ganha e se ciclana tem orgasmos. A mulher inha bate no peito e brada indignada: “Eu sou uma mulher honesta” para exemplificar que ela jamais faria o que a vítima de sua própria maledicência fez. Pode algo mais brega? Pode. Vindo da mulher inha , é até previsível. A mulher inha passa o dia cochichando e sempre sabe de tudo ao seu redor. Possui um dialeto próprio que deveria ser registrado mesmo que seja ela a única a entendê-lo as vezes: a indiret inha. A mulher inha solta indiret inhas e ri de suas proezas quando todo mundo ao seu redor não parece conceber suas palavras. Claro que por entenderem seu intento ( de alfinetar) sorriem em cumplicidade mesmo sem as vezes identificarem o alvo da ferroada. Mas a mulher inha atrai suas semelhantes. Então sempre mais mulheres inhas estarão ao seu redor tricotando, lavando, passando o sabão. Quer que algo se espalhe feito pólvora? Chegue na mulher inha e ao final suplique: por favor não conte nada para ninguém. No dia seguinte até os hidrantes da rua estarão sabendo.

Agora falando em tom sério e não mais jocoso, se possível for, tratando-se de uma mulher inha: afaste-se de uma. Ela suga sua energia, atrasa sua vida e pinta sua imagem totalmente inversa a dela própria: claro que, uma santa imaculada. Tudo isto lhe dando sorrisinhos e tapinhas nas costas pela frente, com perdão do trocadilho. Pois antes de tudo a mulher inha é boaz inha. Ela vai a missa aos domingos, é espiritualizada, inteligente, boa mãe, ótima esposa ( honesta, lembram?) e excelente profissional. Na visão da mulher inha  uma promoção na empresa que não venha para ela própria deve-se a motivos escusos. A nova estagiária do RH arranca suspiros por onde passa? Puta! A vizinha apareceu com um carro novo: favores sexuais. A mulher inha não perdoa. Ela é daquelas que vem toda melosa e lhe dispara: ” Você não tem filhos?” E pode ver-se em seus olhos o brilho de satisfação como se a sua opção por não querer ranhentos em sua vida  a colocasse em um patamar mais elevado como mulher , o que ela nunca será, pois não esqueçamos que ela é uma inha.

A mulher inha se compraz com suas quedas. Fica ali a espreita esperando que algo dê errado para daí sorrir satisfeita enquanto na sua frente finge lhe apoiar. A mulher inha é benevolente. Ela sempre ajuda alguma instituição e faz questão que todos saibam disto. Ela chama as amigas de “amigas” e na frente de superiores transforma-se radicalmente, ora encarnando Madre Teresa de Calcutá, ora a Hebe Camargo. Ela  olha da cabeça aos pés quando uma outra mulher passa por ela e sempre tem um quê para dizer. Ah, o dialeto.

Não a tente compreender. Kafka não conseguiu. Bem que, neste caso, tratava-se de uma pequena mulher e não uma mulher inha e diante da sordidez deste texto parece até um crime citá-lo aqui mas sou assim, lembro-me dos clássicos até nas turpitudes. Isto é o que me difere da mulher inha. Ela nem sabe sobre o que falo. Ainda bem.

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Foto Google.

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