A Mulher Inha

Elas não tiveram suas informações coletadas no último censo demográfico. Pelo menos não de forma a serem identificadas facilmente após uma consulta ao banco de dados e também não chamam suspeita sobre si a primeira vista. Mas ao um simples gesto inocente como abrir a boca ou dirigir um olhar eis que ela se revela: a mulher inha. A mulher inha não tem vida própria. Vive a vida dos outros.  Melhor dizendo, das outras. Sabe quem foi para cama com quem, quem é gay, quanto fulana ganha e se ciclana tem orgasmos. A mulher inha bate no peito e brada indignada: “Eu sou uma mulher honesta” para exemplificar que ela jamais faria o que a vítima de sua própria maledicência fez. Pode algo mais brega? Pode. Vindo da mulher inha , é até previsível. A mulher inha passa o dia cochichando e sempre sabe de tudo ao seu redor. Possui um dialeto próprio que deveria ser registrado mesmo que seja ela a única a entendê-lo as vezes: a indiret inha. A mulher inha solta indiret inhas e ri de suas proezas quando todo mundo ao seu redor não parece conceber suas palavras. Claro que por entenderem seu intento ( de alfinetar) sorriem em cumplicidade mesmo sem as vezes identificarem o alvo da ferroada. Mas a mulher inha atrai suas semelhantes. Então sempre mais mulheres inhas estarão ao seu redor tricotando, lavando, passando o sabão. Quer que algo se espalhe feito pólvora? Chegue na mulher inha e ao final suplique: por favor não conte nada para ninguém. No dia seguinte até os hidrantes da rua estarão sabendo.

Agora falando em tom sério e não mais jocoso, se possível for, tratando-se de uma mulher inha: afaste-se de uma. Ela suga sua energia, atrasa sua vida e pinta sua imagem totalmente inversa a dela própria: claro que, uma santa imaculada. Tudo isto lhe dando sorrisinhos e tapinhas nas costas pela frente, com perdão do trocadilho. Pois antes de tudo a mulher inha é boaz inha. Ela vai a missa aos domingos, é espiritualizada, inteligente, boa mãe, ótima esposa ( honesta, lembram?) e excelente profissional. Na visão da mulher inha  uma promoção na empresa que não venha para ela própria deve-se a motivos escusos. A nova estagiária do RH arranca suspiros por onde passa? Puta! A vizinha apareceu com um carro novo: favores sexuais. A mulher inha não perdoa. Ela é daquelas que vem toda melosa e lhe dispara: ” Você não tem filhos?” E pode ver-se em seus olhos o brilho de satisfação como se a sua opção por não querer ranhentos em sua vida  a colocasse em um patamar mais elevado como mulher , o que ela nunca será, pois não esqueçamos que ela é uma inha.

A mulher inha se compraz com suas quedas. Fica ali a espreita esperando que algo dê errado para daí sorrir satisfeita enquanto na sua frente finge lhe apoiar. A mulher inha é benevolente. Ela sempre ajuda alguma instituição e faz questão que todos saibam disto. Ela chama as amigas de “amigas” e na frente de superiores transforma-se radicalmente, ora encarnando Madre Teresa de Calcutá, ora a Hebe Camargo. Ela  olha da cabeça aos pés quando uma outra mulher passa por ela e sempre tem um quê para dizer. Ah, o dialeto.

Não a tente compreender. Kafka não conseguiu. Bem que, neste caso, tratava-se de uma pequena mulher e não uma mulher inha e diante da sordidez deste texto parece até um crime citá-lo aqui mas sou assim, lembro-me dos clássicos até nas turpitudes. Isto é o que me difere da mulher inha. Ela nem sabe sobre o que falo. Ainda bem.

keep_walking1-e1344683415532

Foto Google.

Licencia de Creative Commons
Este obra está bajo una licencia de Creative Commons Reconocimiento 4.0 Internacional.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s