Zobeide

zobeide

Foto: Google.

Hoje, passado os festejos e correrias habituais de final de ano, parei para fazer o balanço do ano que findou. Se foi um ano bom? Teve seus aspectos bons e ruins. Mas um ano que tenhamos atravessado com saúde, amor, trabalho e alguma risada, ainda assim está no lucro. Parei para pensar no que mais me marcou este ano. E que bom constatar que o que mais me “balançou” , visto que esta era a idéia original , foi a leitura de uma obra: Cidades Invisíveis de Italo Calvino. Um livro fantasioso, carregado de metáforas e com uma linda história de cidades relacionadas à condição humana e suas contrariedades. Deixo aqui uma dos meus trechos preferidos, de tanto lê-lo já consigo quase que declamá-lo:

“Naquela direção, após seis dias e sete noites, alcança-se Zobeide, cidade branca, bem exposta à luz, com ruas que giram em torno de si mesmas como um novelo. Eis o que se conta a respeito de sua fundação: homens de diferentes nações tiveram o mesmo sonho — viram uma mulher correr de noite numa cidade desconhecida, de costas, com longos cabelos e nua. Sonharam que a perseguiam.
Corriam de um lado para o outro, mas ela os despistava. Após o sonho, partiram em busca daquela cidade; não a encontraram, mas encontraram uns aos outros; decidiram construir uma cidade como a do sonho. Na disposição das ruas, cada um refez o percurso de sua perseguição; no ponto em que havia perdido os traços da fugitiva, dispôs os espaços e a muralha diferentemente do que no sonho a fim de que desta vez ela não pudesse escapar.
A cidade era Zobeide, onde se instalaram na esperança de que uma noite a cena se repetisse. Nenhum deles, nem durante o sono nem acordados, reviu a mulher. As ruas da cidade eram aquelas que os levavam para o trabalho todas as manhãs, sem qualquer relação com a perseguição do sonho. Que, por sua vez, tinha sido esquecido havia muito tempo.
Chegaram novos homens de outros países, que haviam tido um sonho como o deles, e na cidade de Zobeide reconheciam algo das ruas do sonho, e mudavam de lugar pórticos e escadas para que o percurso ficasse mais parecido com o da mulher perseguida e para que no ponto em que ela desaparecera não lhe restasse escapatória.
Os recém-chegados não compreendiam o que atraía essas pessoas a Zobeide, uma cidade feia, uma armadilha.”

Sei que uma mesma leitura pode ter efeito diferente nas mais diversas pessoas e o que tocou em mim pode não fazer o menor sentido para ninguém, mas esta passagem em especial me comoveu de tal maneira que a primeira vez que a li, arrancou lágrimas de minha alma. Em minha análise, penso que Zobeide é a vida. Sim, uma verdadeira armadilha. Nós somos os habitantes desta cidade feia. E a mulher é o sonho pelo qual passamos a vida toda perseguindo. Por este sonho insistimos, caímos, reerguemos, mudamos, construímos, nos isolamos, erguemos muros em nossos corações, despertamos, continuamos, seguimos. As vezes vemos outros habitantes desta mesma cidade, verdadeiros autômatos, que acordam todos os dias e fazem tudo mecanicamente igual, sem perspectivas , sem mesmo prestar atenção nas curvas sinuosas de suas ruas. Estes deixaram de perseguir a mulher fugitiva e com esta decisão tão somente existem comodamente, sem entretanto, viver. Novos sonhadores chegam a cidade todos os dias e renovam a esperança de encontrá-la e assim motivam outros tantos em uma grande corrente solidária. Alguns dizem que já a tiveram em seus braços e outros que nunca a viram, vindo a constatar tarde demais que a tiveram, mesmo que por breves momentos.

A despeito dos diferentes pontos de vista pela mesma mulher (o que a torna única para cada um) unânime é dizer: ela que nos impulsiona, esta mulher, que na maior parte das vezes só a vemos de costas. Ela nos faz atravessar os dias, meses, anos sem atentarmos para a desolação que nos cerca. Por ela, suportamos a tristeza, o desânimo, todas as forças contrárias. Quando pensamos em desistir é nela que encontramos a força para tentar mais uma vez. A corredora das ruas de Zobeide é a figura que representa nossos sonhos. São eles que nos movem. Quando deixamos de sonhar fazemos parte de uma construção feia e sem vida. Sonhemos então. Em conjunto com outros habitantes ou individualmente. Por toda a vida. Pois são os sonhos que nos mantém vivos.
Calvino me encantou pois vi poesia em suas cidades feias, belas, tristes, loucas. Talvez para alguns Zobeide seja somente mais uma mulher das mil e uma noites. Para mim Zobeide é um sonho…

…E o que é então um sonho? Um sonho é uma mulher nua com longos cabelos correndo por uma cidade sem nome, perseguida por vários homens. Quando quase encurralada ela consegue astutamente sempre despistá-los. Pobres homens. Também eles correm alucinadamente pela cidade sem nome e pelos becos e escadarias somente dão de encontro uns aos outros. Pobres homens que acreditam nesta mulher e por ela constroem muros ao redor de seus corações. Pobres homens que vivem atormentados pelo desejo ardente de a possuírem apenas uma vez. Ainda assim, antes estes do que aqueles que perderam-se nas ruas da cidade sem nome. Por estes, ela passa infinitas vezes, roçando sua pele morna em seus corpos cansados. Eles não mais a sentem. Não mais a desejam. Não mais a perseguem. Estão mortos, todavia não o sabem.

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