Devaneio

Já lhe contei doutor das cartas suicidas? Escrevia-as quando dos dias agonizantes destes que ficam arrastando-se tediosamente como folhas secas em tardes de outono, empurradas por um vento insistente.   Mas o que uma criança sabe sobre dias vazios, perguntariam os mais velhos caso fossem questionados. O que sabe ela sobre ficar horas e horas contemplando o nada, sonhando com algo que nem conheça, sentindo saudade de algo nem vivido, arrependendo-se de feitos não feitos. O que sabe esta maldita e deplorável criatura acerca dos infortúnios desta também maldita e deplorável vida? Desculpe-me Doutor se despejo aqui minha amargura de adulto misturada a minha melancólica infância e esta acrimônia homogênea me invade até sair pelas entranhas, gotejando pelos poros e inundando esta sua sala burguesa com seus móveis caros e seus quadros imitando grandes obras de arte. Não devo me desculpar eu sei, mas é a força do hábito de anos a fio me desculpando pelas visões, opiniões, pensamentos desiguais. Me desculpando por não ter sido gentil no momento certo. Por não ter correspondido quando do esperado. Sim, voltemos as cartas. Sempre as iniciava com um ” a quem possa interessar”. Não esperava daí um voto de comiseração, um olhar indulgente ou uma preocupação sobre meu auto imputado retraimento. Achava divertido este meu cabeçalho, não querendo ser trágica, querendo ser cômica apenas  e através de minhas gracinhas fazer soar aquele sinal de alarme que poucos detectariam como perigo. Estes poucos seriam meus eleitos, meus adorados. Saberia que deveria tomar cuidado com eles, para que não vissem demais, mas não são eles as pessoas fabulosas que nos fascinam, as mais perigosas? Tenho medo deles até hoje. Tenho medo das pessoas que me vêem. Não das que me julgam conhecer, mas daquelas que realmente me vêem. Estas são perigosas. Mas também, são tão poucas. Nada com que eu tenha me preocupar, não é mesmo? O teor das cartas? Tolices infantis, como diria minha mãe, sem realmente jamais ter lido uma delas. Falava sobre minha vontade de não existir. Não, nunca cogitei, nem mesmo hoje, em acabar com minha vida. Tenho pouca tolerância a dor. Física, esclareço aqui. E qualquer provocação a ela mesmo que rápida e instantânea como sugerem os obituários criminais de seriados televisivos não me sugestionam. Queria dormir e não acordar simplesmente. Mas sem dor. Esta máscara na parede, é nova não? Sempre aí esteve? Preciso tirar o detalhista de minha descrição. Não quero fugir do assunto, simplesmente não quero encarar que não seja a vontade de participar de um mundo que eu considero mau e infeliz e sim a vontade que eu tenho de que ele me fosse melhor. Ao mesmo tempo não acredito em nada disto e é como se eu vivesse confortavelmente nesta minha zona de azedume e consternação. É relativamente bom saber que sempre o terei aqui mesmo tendo que encarar este seu maldito sorriso complacente e esta sua anuência bovina perante meus devaneios. É reconfortante saber que não me entendem, que não me enxergam, que não me querem. Muitos. Do resto tenho medo.

* Publicado originalmente em Salsa parrilha- 18/04/2013

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Foto Google.

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2 pensamentos sobre “Devaneio

  1. André…eu li há um tempinho atrás um livro chamado Divã da Martha Medeiros que acabou virando peça de teatro, cinema, seriado global (arghs) foi daí que me inspirei com a ajuda de alguns fatos reais. Todos meus textos tem um pouco da minha vida ( os que o tornam um pouco deprimente, rs). Em tempo: não sou fã da Martha, ganhei este livro , mas gostei da ideia da análise, da conversa de uma paciente com seu analista. Hoje em dia parece que tudo já foi dito. Quando veio a ideia para o texto, automaticamente veio a lembrança deste livro. Droga. Escrevi mesmo assim. Mas…(parodiando uma vez mais) quais são as palavras que nunca são ditas, não é mesmo?

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