Pedaços de um dia quem sabe…

As vezes pensava que deveria ter continuado a vender sapatos. Com um pouco de lábia empurrava-se os pares mais caros para o primeiro trouxa do dia e convencia-o de que necessitaria ainda de meias e uma pomada especial para proteger o couro. Era preciso um pouco de sorte também. Para entrar o cliente certo na hora certa. A hora certa significava a sua vez. Revezavam-se os vendedores a espera dos clientes e enquanto aguardava o seu ficava observando os que eram cercados pelos seus colegas não deixando de comparar aquele estranho ritual a um ataque de leões esfomeados à um pobre cervo. Não era de todo ruim. O que matava era uma escada íngreme que terminava no estoque, local este que subia e descia mil vezes ao dia em busca de mais e mais sapatos. Ainda assim era melhor que agora. Subia. Descia. Convencia. O salário era garantido. Se vendia , tanto melhor. Se não vendia, apertava o cinto durante o mês. Apesar disso, o aluguel e o almoço salvavam-se, de qualquer forma. Os sapatos, definitivamente, não eram seu maior problema. Na realidade eram sua salvação. Eles abrandavam os pensamentos que lhe remoíam a mente até a exaustão. Era bombardeado constantemente por eles. E mais: reflexões, planos, ideologias, devaneios, aforismos, idéias. Nenhuma que lhe valessem um mísero jantar, é verdade. As pessoas não queriam palavras escritas. Antes desenhasse. Tirinhas inteligentes. Não, melhor se fossem idiotas. Engraçadas. Rápidas. Uma risada. Próxima. As pessoas não queriam palavras escritas. Ele seria mais útil a elas se continuasse com os sapatos, refletia, enquanto derretia em cima da velha máquina de escrever, brigando com um ventilador do qual saía um barulho ensurdecedor e partículas negras infestando ainda mais o cubículo fétido que dividia com ratos e baratas.

Ela chegou em uma noite destas, onde a barriga de todos doía. A dele e de seus companheiros de quarto. Era final de mês e as vendas andavam péssimas. Conseguia almoçar em um pardieiro no final da rua perto do trabalho, onde a dona anotava em um caderno sujo e engraxado, para pagar quando ele recebesse. Desconfiava que ela apontasse alguns almoços a mais, não que fosse dado a estas mesquinharias, mas na atual condição em que vivia, cada centavo lhe custava milhões. A dona era uma velhota obesa com rosto bexiguento. Tinha uns olhos miudinhos e intranquilos que ficavam revirando-se continuamente dando a ele a impressão de um animalzinho sorrateiro. Percebera neste enviesamento visual um olhar guloso para ele. Levara para brincadeira, apesar da espelunca o almoço era comível. A dona não. Não valia o esforço. Por aqueles dias um conto seu valera-lhe alguns trocados. Fora a salvação por um tempo mas agora estava realmente duro, a geladeira vazia e o ventilador parara de vez. Tarde da noite sonhava com as pilhas e pilhas de sapatos que o aguardavam no dia seguinte. Como privara-se do vento, acomodara-se na cama com uma caneta e bloco de notas, o mais confortavelmente possível. Estava assim, levemente alcoolizado com um resto de vodca que ainda guardara, quando ela chegou. Não bateu. Empurrou a porta que sempre deixava destrancada visto que não havia nada a resguardar de supostos ladrões.
– O que queres aqui? – perguntara-lhe, semi consciente de sua nudez, tentando esconder um pouco dela com o lençol amarfanhado.
– Não tenho para onde ir- Dissera-lhe ela- Era quase bonita. Quase jovem. Quase normal.- Tinha um cheiro doce de bebidas, cigarro mentolado e perfume barato. Quase bom.
– Não tenho nada para lhe oferecer- Insistira ele como se dissesse “Ei garota, caia fora. Olhe ao seu redor. Consegues ver esta cama frouxa de molas, este colchão mofado, esta roupa de cama encardida, este fogão imundo, esta pia quebrada, esta louça deplorável, panelas tortas, este ventilador moribundo e esta máquina de escrever enferrujada? Há também algumas poucas roupas nestas caixas de papelão e algum material de higiene. Isto é tudo.
-Tem isto- Disse ela se aproximando enquanto o seu dedinho encostava na parte alta de sua cabeça e a outra mão simultaneamente encobria seu órgão , ambos latejantes, um pela bebida barata, outro por uma mão que não a sua própria.
Amaram-se por um bom tempo, o suficiente. O quanto pode durar o amor entre miseráveis.
Durou o livro não terminado.
Durou o emprego como vendedor de sapatos.
Durou os poucos móveis vendidos.
Durou a entrega do quarto imundo.
Vida sua horrorosa, aí vamos nós outra vez.

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Criação

O criador em um momento estro, concebeu o entardecer. Inspirado por sabe-se sei lá o quê, colocou nele o oceano, o frescor e o silêncio. Para os seus fez um trato: “Tens o céu, tens o mar, tens areia e o ar. Tudo o que peço é sua gratidão.
É por isto que quando passamos apressados olhando pelo vidro embaçado do carro ou mesmo empoleirados nas alturas as quais chamamos lar, e suspiramos pesarosos, achando que a vida está passando rápido demais, nos permitimos aquela velha sensação de abandono, de exclusão, de esquecimento. Ah, se aprendêssemos escutar, não importaria onde estivéssemos, ouviríamos sempre uma voz nos soprar:” Tens toda minha criação. Agradeça, agradeça”. E assim conseguiríamos mesmo que distantes dele, escutar o barulho do mar. Escutar o sussurrar de Deus.Imagem

Foto arquivo pessoal- Praia dos Ingleses- Florianópolis-SC

Para onde José?

…E agora José que a inspiração acabou….
para onde que eu vou?

me disseram que…
basta rimar…

amor com dor..
morrer com gemer…
mas você não morre, José
e já que vivo de arremedos
quem sou eu para falar de amor?

Entre Drummonds, Chicos e até Veríssimos ( poesia numa hora dessas?), sigo… 

mas José, para onde? …Imagem

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E agora que somos só felizes?

Paira no ar um complô opressivo
para que sejamos felizes a revelia
eu sou feliz
você me diz
e quem é que não seria?
A vida é bela
esqueçamos
a tristeza e nostalgia
eu sorrio sigo a massa
mas meu peito se rechaça
em meio a toda esta alegria
uma pontinha de preocupação
invade o meu coração:
O que será da poesia?Imagem

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Hey, teachers, leave those kids alone!

Para tudo na vida tem uma primeira vez, não? E acreditem ou não eu nunca em toda minha vida estudantil colei. Digo cola com prova material. Aquela do ajeitar a folha meio de ladinho para o colega espiar ou cutucar o colega da frente entre dentes “passa a dois, passa a dois”, já fiz muito. Na verdade mais passei do que pedi. Não querendo me gabar disto fazendo a linha intelectual “não preciso de cola”, mas é que tenho motivos mais do que justificáveis para isto. Fico uma pilha nestas situações. Aliás já deveria saber disto antes de me prestar à presepada de ontem. Eu havia estudado muito mas a realidade é que na última prova também havia , entretanto, um desencontro entre a minha linha de raciocínio com a linha de interpretação da professora me fez não ir tão bem quanto eu gostaria. Somado a isto a incitação dos colegas , notem aí que falei colegas e não amigos pois amigos verdadeiros não te induzem à corrupção dos seus princípios morais e éticos, lá foi a bocó aqui digitar em uma fonte minúscula dados que considerava chave para a bendita prova. Chegando na sala de aula por um breve instante pensei em retroceder e dar meia volta pensando ter me enganado de local pois o ambiente em questão lembrava Sodoma e Gomorra em plena destruição com todos falando muito ao mesmo tempo, mesas sendo arrastadas e trocas de lugares simultâneas para um segundo após serem desfeitas e…o caos. A professora entrou toda sorridente fingindo não notar que exatamente ninguém estava em seu lugar habitual. Creio que ela nutre uma simpatia toda especial por mim devido ao fato talvez de eu ser a tia da turma, e mais por falta de identificação com os demais do que por seriedade propriamente dita sou bem concentrada e comportada. Então quando ela me encontrou com olhos inquisitivos no fundão da sala, eu que normalmente sento na primeiríssima fila, brindei-a com um sorriso de desculpas como se gritasse: EU NÃO TENHO CULPA! Ela então ajeitou seus óculos de aro tartaruga, arrebitou ainda mais seu narizinho de marfim e com aquela sua vozinha de soprano resfriada bradou: VOLTEM AGORA MESMO PARA OS SEUS LUGARES! POR ACASO ESTÁ ESCRITO IDIOTA EM LETRAS GARRAFAIS BEM NO MEIO DA MINHA TESTA? Voltamos em um piscar de olhos, alguns mais descarados não sem antes dar uma boa conferida na tez alvíssima da mestra. Assim sendo, retornei em derrocada para o meu assento, me amaldiçoando pela escolha dele lá no início do ano letivo e pela minha péssima mania de ser a certinha em tudo, mania esta, eu sei, ainda vai acabar me matando.
Deu-se início a partir daí a um dos momentos mais angustiantes de toda minha existência. Em um breve lampejo de consciência veio-me ao pensamento a imagem de Russell Crowe no papel de Maximus no filme O gladiador e sua célebre frase “O que fazemos em vida ecoa em eternidade” seguida de uma imagem futura de meus netos colando para a prova de Cibernética III isto ainda no prézinho e eu cabisbaixa, diminuída, com o remorso galgando a unha do pé, fazendo vista grossa ao flagrante, sem moral sequer à um simples muxoxo. Mas como normalmente estes relâmpagos intuitivos são aniquilados por uma idéia de quadrúpede lá fui eu cometer a segunda estupidez da noite: colocar o papel dos infernos sobre a folha em branco dada pela professora onde deveriam constar as respostas das questões que ela nos mostraria tão logo conseguisse montar a salvadora tela de imagem. Enquanto ela pelejava com o aparelho eu ajeitei a dita cuja de modo que os dizeres não refletissem por baixo da folha em branco. Tudo bem, tudo certo, as perguntas surgiram na lousa e a professora virou-se para nós ameaçadora como se avisasse eu não estou para brincadeira. Fui acometida então por um ataque de tremedeira que não se igualou nem de perto ao de quando estive entre a vida e a morte resultante de uma catapora recolhida aos treze anos de idade . Muito pior, é claro. Tinha a impressão que a professora conseguia escutar meus dentes batendo violentamente uns contra os outros e a qualquer momento viria me examinar estranhando meu tom de pele que mudava de escarlate carmim intenso para branco neve total em questões de milésimos. E o mais bizarro de tudo: eu sabia todas as respostas das perguntas que piscavam em neón no outdoor que balançava na árvore em frente. Pisquei os olhos aturdida, recobrando-me à tempo do devaneio e aproveitando uma brecha da professora que atendia à uma pergunta ordinária de algum abençoado colega para retirar o oculto miserável que dilacerava meu peito de tanta aflição. De posse do elemento nada mais inteligente ocorreu-me a não ser amassá-lo e acobertá-lo entre os dedos com a mão estendida sob a mesa. A professora voltou ao seu posto no front e minha tremedeira deu lugar a uma enorme vontade de morrer. Descrevo isto agora como se estas cenas tivessem se desenrolado muito rapidamente mas a verdade é que quase um quarto de hora havia se passado e eu ainda não tinha escrito uma só mísera linha acerca dos meus conhecimentos e pior me portava como uma verdadeira psicopata em pleno surto. Novamente uma trégua por parte da professora que virando-se para exigir a prova de um colega pego em incontestável ato de espionagem , causando-me é óbvio uma taquicardia ensurdecedora mas ao mesmo tempo me proporcionando o favorecimento de pegar a buchinha de papel que diminuía a cada susto como o ocorrido há pouco e enfiar pela manga do casaco que eu usava na ocasião. Jamais em toda minha jornada esquecerei deste casaquinho preto ,todo cheio de bolinhas de lã que teve sua carreira encerrada com méritos e glória dignos de medalhas. Um pouco mais refeita da tão sobressaltada situação desandei a escrever travando uma verdadeira maratona contra  o relógio cujos ponteiros voavam e os obstáculos , trincheiras, cones que tentavam bloquear as respostas que dantes pareciam tão próximas. A verdade é que terminei a prova em cinco minutos. Veio daí o conhecido horror que já estava virando figura carimbada naquela noite fatídica. Aliás, alguém ainda tem mesmo dúvidas que uma boa história de terror sempre acontece a noite? Sem mencionar o fato que fazia um frio de cortar e lá fora o vento uivava nas copas das árvores. Apavorei-me ante a possibilidade do papel cair enquanto eu entregasse a prova. Apavorei-me ante a possibilidade de um maníaco entrar atirando na sala. Apavorei-me com as presas que saiam gigantescas da boca da professora e de garras que davam lugar à suas unhas tão bem manicuradas. Estava em um estado tão intenso de pavor que nem me dei conta que só restavam eu e ela na sala, esta já procurando com o rabo dos olhos uma saída emergencial caso a coisa toda chegasse aos extremos. Recompus-me o melhor que minha última dignidade o permitia e segurando as mangas do casaco com a ponta dos dedos fingindo sentir um frio equivalente às geleiras da Patagônia marchei rumo à mesa da docente. Ela deve ter desconfiado pois eu normalmente tão calada e retraída desandei a falar feito uma maritaca, sobre o tempo, sobre o frio, sobre a prova, sobre a crise mundial e o efeito estufa, e após vomitar todo meu nervosismo e sem dar chance da pobre se recuperar da avalanche de palavras girei para a porta da rua sentindo mil quilos em cada perna e fechando esta com um grande estrondo, limpei as gotas de suor que inundavam meu rostinho sem-vergonha. Quando me vi do lado de fora, saquei do maldito papel e de raiva engoli-o quase sem mastigar. Aliviada então, percorri o corredor que levava à cantina de joelhos para pagar uma promessa que havia feito durante o ocorrido, proferindo em voz alta: Nunca mais farei isto, nunca mais farei isto, nunca mais farei isto. Está bem, esta parte é mentira.

* Publicado originalmente em Salsa Parrilha- 16/05/2009

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Um continho de fadas contemporâneo

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Esta é uma história banal sobre um conto de fadas moderno que aconteceu lá onde o diabo perdeu os “crocs”. Acontece que ela era uma princesa lindíssima que vivia em um castelo decadente e fora criada desde pequenina a pão de ló com o único objetivo de um belo dia encontrar um príncipe abastado que viria para arrastá-la dali levando no tal arrasto a família toda para bem longe da penúria consolidada nos jogos de cartas do pai beberrão. Acontece que ele que de príncipe não tinha nada, um belo dia, quando ela estava na janela da torre do castelo, olhando aborrecida para o infinito, chegou de mansinho e falou: – “Ó bela dama, que estás tão serena a olhar para o nada, do longe venho eu e tenho fome e sede. Terias algo a me dar”?

A princesa já entediada, desanimada com o tal príncipe que nunca aparecia mesmo, convidou o tal estranho a adentrar, aproveitando um dos raros momentos que os pais não estavam em casa. Com o dito cujo já estatelado na cadeira da cozinha, notou ela que a impressão inicial de feiúra começava a dissipar-se e podia vislumbrar por baixo da cabeleira desgrenhada um até rostinho simpático, não fosse os olhos tão estranhamente caídos e levemente avermelhados. -“Tenho cá ovos e leite , se a pressa não for prioritária, façamos um bolo gostoso para saciar a sua fome de muitas andanças”, disse ela. “Enquanto coze a iguaria, poderemos saciar seu desejo de conversação visto que andas há muitos dias por estas terras  inabitáveis e deves estar sôfrego por quem o faça ouvidos. Se ainda assim ansiares por algo mais, posso eu”… atropelava-se nas palavras a princesinha , temerosa de não fazer-se compreendida, pois receava que o tal príncipe nunca viesse realmente e se o destino este gozador lhe reservara um andarilho sem eira nem beira ainda assim era bem melhor do que a vida estúpida naquele castelo horroroso com uma mãe histérica e um pai que ainda delirava com os áureos tempos das jogatinas e nos devaneios passava o dia na mesa como se estivesse em uma grande taverna rodeada de amigos, rindo, trapaceando, blefando.– “Estás a enlouquecer ou da loucura já nascestes acompanhada?”- Interrompera o visitante com os olhos chispando de raiva enquanto ela assustada ensaiava um sorrisinho nervoso e já  procurava  uma possível saída com o rabo dos olhos. –”Ovos? Leite?” –Vociferava ele. – “Sabes a senhorita do sofrimento pelo que são infligidos os pobres animais para  a sua egoísta satisfação palatina?  Do confinamento que as pobres galinhas são submetidas tornando-se assim um produto resultante de um processo industrial cruel e ganancioso? E do trauma incutido as coitadinhas das vacas que tem as suas crias tiranamente arrancadas de seus seios, neste caso de suas tetas? Com que autoridade interfere a senhora na natureza desta forma a causar sofrimentos tão devastadores? Julgar-se a Deus? Ou Deusa?” – Na primeira pausa que parou para tomar ar e poder continuar assim sua eloquente oratória, tomou-lhe em cheio um ovo no meio da testa, seguido de uma golfada de leite arremessado com fúria . Teve ainda um açucareiro desmanchado no coco da cabeça, já que o propósito original era o de um bolo ser preparado. –”Vá para os quintos dos infernos , volte para os confins das macegas de onde nunca deverias ter se aventurado a dar um passo. Dedico-me de corpo e alma a receber-te bem e vens com este trololó que até agora não entendi uma só palavra, mas vai que de louco em minha vida estou legal!” – Minha princesa”, abaixava ele um pouco a empáfia, quando mais um ovo o fez-se calar subitamente. – “O que quero dizer é que”..- outro ovo. 

Corria agora estabanadamente em direção ao portão debaixo de uma rajada de omelete. A mãe bem o alertara que o seu discurso vegan  não o levaria a lugar algum. Agora ia-se ele novamente. Sem vento, nem documento. Nem com uma princesinha linda daquelas. Mas com a honra das vacas e galinhas preservadas, consolava-se enquanto mastigava uma folha qualquer para aplacar a fome que lhe doía a barriga.

Moral da história do ponto de vista da princesa: A carência é mãe da roubada.
Moral da história do ponto de vista do andarilho: A ideologia é o cunhado mala da barriga vazia.

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Sim!

O Mês era outubro, mas bem que poderia ser agosto ou julho talvez, visto que fazia frio ainda. Lembro agora que era uma festa de uma santa qualquer e as festas de santas são sempre em outubro não são? Portanto era outubro. Talvez fosse apenas o fim dos anos setenta, mas pensando bem hoje não teria como o saber , pois lá as décadas transcorriam todas iguais, todos os modismos, tendências e movimentos sempre passando a muitos quilômetros de distância daquele povoado , onde as mulheres sempre usavam o mesmo corte de cabelo comprido e a vitrola sempre tocava as mesmas músicas dos vinis comprados com a féria da igreja. Só sei que aquele dia tinha um ar diferente no ar e a certeza gritante que um outro mundo orbitava em torno do meu era tão certeira quando a existência da outra que habitava em mim. Ah, deixem-me falar sobre ela, agora. A outra que ainda habita em mim acorda tarde todos os dias. Ri-se desta urgência de vida e diz que somente os tolos afligem-se pelo passar das horas. É complacente com os impulsivos, perdoa seus destemperos e sempre oferece a outra face, sorridente. Enquanto ela dormita porém , faço das minhas e aumento ainda mais a lacuna entre o resto dos mortais. A outra que habita em mim vive na linha tênue entre a loucura e a genialidade , entretanto sua forma Poliana de ver a vida a mantém encarcerada em seus próprios pensamentos e as vezes fica assim, olhos semi cerrados e sorriso frouxo , achando que tudo tem o seu tempo certo e esperando, esperando… todavia, quando está bem desperta, a outra sai por aí e faz coisas que o meu coração anseia mas que um bloqueio maior o impede. A outra sabe a hora certa de chegar , sabe o que dizer, sabe acalentar, sabe mimar, contar coisas engraçadas e dizer que dias melhores virão. Ela sabe fazer tudo o que se espera que se faça nas horas difíceis. E nas horas boas ela sabe ser o centro das atenções também. Mas eu não sei fazer. Não sei o que esperam de mim e quando a outra volta para o seu sono profundo e seu mundo contemplativo eu me desespero e para não cometer bobagens fico quieta no meu canto, só esperando a outra voltar.
Era outubro então e após um lauto almoço, mesas e cadeiras começaram a ser arrastadas para dar lugar ao que já era antes, uma pista de dança. De parquês tão cuidadosamente encerados , era grande o bastante para os poucos jovens que se aventuravam ainda naquele fim de mundo a ensaiar uns poucos passos para a vida. O som que saía do toca discos era Dancing Queen e as meninas sempre mais bem dispostas escorregavam para a pista sempre levando a reboque uma outra mais acanhada. Os meninos apenas sorriam, mexendo levemente os pés, com um copo de bebida na mão. A um canto de uma mesa eu ficava olhando divertida , louca para me entregar àquele som dançante, rir, rodopiar e pegar pelas mãos todos os presentes e arrastá-los para a pista, para que todos perdessem seus medos, seus temores, suas vergonhas. Mas não o fiz. Bastaria uns poucos passos, talvez alguns tímidos segundos, um enfrentamento de alguns olhares maliciosos e pronto. Meu coração acelerava entre a ânsia de ir e a sensação de estagnação, de não poder fazer nada. E a outra dormia silenciosamente, com um sorriso nos lábios. Certamente sonhava com a música que dizia “ você está a fim de dançar, e quando você consegue a chance, você é a Rainha da Dança”…

P.s: Para Simone, que me ensinou uma das palavras mais bonitas do dicionário. Queria tê-la escutado quando tinha meus sete anos e o maior problema de minha vida consistia no dilema de me entregar a uma dança ou me esconder do mundo. Engraçado que hoje por intermédio de uma música também escutei algo parecido cuja tradução diz: “ e quando você tiver que escolher entre sentar ou dançar, eu espero que você dance”. Obrigada querida e dance para a vida, ela precisa de você. E quando eu ficar quieta, não me estranhe, é meu jeito torto de ser enquanto espero uma outra acordar para então sorrir e ser feliz.

Ah, a palavra? Inquietude . Linda não?

 

* Publicado originalmente em Salsaparrilha- 19/02/2010Imagem

Foto arquivo pessoal. Simone.