Das certezas que te amo…

O  vento a castigava em menor intensidade pois protegida estava ela pelo dorso a sua frente vestido em uma grossa jaqueta de couro. Abraçava aquela cintura como se ali estivesse todo o porto seguro do mundo. Iam assim os dois tendo por trilha sonora o leve ronronar do motor e o assovio do vento que fazia voar um pouquinho do seu cabelo que teimava em sair do capacete protetor, mas um pouquinho só, causando uma cóceguinha na nuca que a fazia sorrir feliz.  A manhã estava radiante e era possível ver por entre as copas das árvores o sol que timidamente lançava seus raios em uma tentativa de aquecer um pouquinho o dia gélido. Lembrara ela que não indagara acerca do destino que buscavam, não que isto tivesse importância, naquele dia despreocupado, mas mesmo assim uma inquietaçãozinha que agora ela não consegue explicar, por mais que as vezes pare para refletir, o porque da pergunta, se não tinham, ambos, compromisso com mais nada a não ser com a vida que lhes cobrava a retribuição dos dias perdidos entre quatro paredes e folhas de papéis. Talvez fosse apenas para quebrar aquele momento idílico, tinha disto as vezes, um medo insano de que tudo acabasse em um piscar de olhos, e precipitadamente o temor da efemeridade a fazia antecipar o final dos bons momentos. 

 Talvez fosse apenas para romper a barreira do silêncio de vozes , não que a precisassem, poderiam passar dias, anos a fios se comunicando apenas com o olhar. Ficara apenas o porque da indagação, não que tivesse importância, repetiria ela por muitas vezes seguidas acompanhada de um erguer e baixar de ombros mas que volta e meia a fazia jogar os olhos para cima como quem procura contar estrelas em um céu delas próprias, sabem como é isto , os olhos ficam assim , meio apertadinhos e de repente se abrem extasiados quando as percebem? Não pretende ela demorar-se aqui nesta constatação, mesmo porque são das perguntas não feitas que resultam as maiores dores de cabeça, mas ficara ela com isto, com o porque da pergunta feita e mesmo este porque só veio bem depois quando aquele momento sublime veio a  ser apenas uma doce lembrança que nos atinge nas mais inusitadas horas e no caso dela parecia vir sempre que sentia o vento açoitar seu rosto levemente. Talvez, fosse isto, o vento. Quisera ela senti-lo um pouquinho mais atrevido e para isto erguera o visor um tantinho apenas, suficiente para aspirá-lo em sua plenitude. O vento, a sensação de calmaria, o abraço mais apertado, o conforto,a segurança, tudo isto trouxe um momento único. Perguntara ela então, levantando um pouquinho um tom, para fazê-lo ouvir além do motor e do vento:
-Para onde estamos indo?
E a resposta dita em tom cheio de ternura,  lhe trouxe mais uma das certezas:

– Easy rider!

* Publicado originalmente em Salsaparrilha- 29/08/2011

 

Imagem

 

Foto Google.

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