Sim!

O Mês era outubro, mas bem que poderia ser agosto ou julho talvez, visto que fazia frio ainda. Lembro agora que era uma festa de uma santa qualquer e as festas de santas são sempre em outubro não são? Portanto era outubro. Talvez fosse apenas o fim dos anos setenta, mas pensando bem hoje não teria como o saber , pois lá as décadas transcorriam todas iguais, todos os modismos, tendências e movimentos sempre passando a muitos quilômetros de distância daquele povoado , onde as mulheres sempre usavam o mesmo corte de cabelo comprido e a vitrola sempre tocava as mesmas músicas dos vinis comprados com a féria da igreja. Só sei que aquele dia tinha um ar diferente no ar e a certeza gritante que um outro mundo orbitava em torno do meu era tão certeira quando a existência da outra que habitava em mim. Ah, deixem-me falar sobre ela, agora. A outra que ainda habita em mim acorda tarde todos os dias. Ri-se desta urgência de vida e diz que somente os tolos afligem-se pelo passar das horas. É complacente com os impulsivos, perdoa seus destemperos e sempre oferece a outra face, sorridente. Enquanto ela dormita porém , faço das minhas e aumento ainda mais a lacuna entre o resto dos mortais. A outra que habita em mim vive na linha tênue entre a loucura e a genialidade , entretanto sua forma Poliana de ver a vida a mantém encarcerada em seus próprios pensamentos e as vezes fica assim, olhos semi cerrados e sorriso frouxo , achando que tudo tem o seu tempo certo e esperando, esperando… todavia, quando está bem desperta, a outra sai por aí e faz coisas que o meu coração anseia mas que um bloqueio maior o impede. A outra sabe a hora certa de chegar , sabe o que dizer, sabe acalentar, sabe mimar, contar coisas engraçadas e dizer que dias melhores virão. Ela sabe fazer tudo o que se espera que se faça nas horas difíceis. E nas horas boas ela sabe ser o centro das atenções também. Mas eu não sei fazer. Não sei o que esperam de mim e quando a outra volta para o seu sono profundo e seu mundo contemplativo eu me desespero e para não cometer bobagens fico quieta no meu canto, só esperando a outra voltar.
Era outubro então e após um lauto almoço, mesas e cadeiras começaram a ser arrastadas para dar lugar ao que já era antes, uma pista de dança. De parquês tão cuidadosamente encerados , era grande o bastante para os poucos jovens que se aventuravam ainda naquele fim de mundo a ensaiar uns poucos passos para a vida. O som que saía do toca discos era Dancing Queen e as meninas sempre mais bem dispostas escorregavam para a pista sempre levando a reboque uma outra mais acanhada. Os meninos apenas sorriam, mexendo levemente os pés, com um copo de bebida na mão. A um canto de uma mesa eu ficava olhando divertida , louca para me entregar àquele som dançante, rir, rodopiar e pegar pelas mãos todos os presentes e arrastá-los para a pista, para que todos perdessem seus medos, seus temores, suas vergonhas. Mas não o fiz. Bastaria uns poucos passos, talvez alguns tímidos segundos, um enfrentamento de alguns olhares maliciosos e pronto. Meu coração acelerava entre a ânsia de ir e a sensação de estagnação, de não poder fazer nada. E a outra dormia silenciosamente, com um sorriso nos lábios. Certamente sonhava com a música que dizia “ você está a fim de dançar, e quando você consegue a chance, você é a Rainha da Dança”…

P.s: Para Simone, que me ensinou uma das palavras mais bonitas do dicionário. Queria tê-la escutado quando tinha meus sete anos e o maior problema de minha vida consistia no dilema de me entregar a uma dança ou me esconder do mundo. Engraçado que hoje por intermédio de uma música também escutei algo parecido cuja tradução diz: “ e quando você tiver que escolher entre sentar ou dançar, eu espero que você dance”. Obrigada querida e dance para a vida, ela precisa de você. E quando eu ficar quieta, não me estranhe, é meu jeito torto de ser enquanto espero uma outra acordar para então sorrir e ser feliz.

Ah, a palavra? Inquietude . Linda não?

 

* Publicado originalmente em Salsaparrilha- 19/02/2010Imagem

Foto arquivo pessoal. Simone.

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