Um continho de fadas contemporâneo

TINDERELLA-A-CINDERELLA-MODERNA-3

Esta é uma história banal sobre um conto de fadas moderno que aconteceu lá onde o diabo perdeu os “crocs”. Acontece que ela era uma princesa lindíssima que vivia em um castelo decadente e fora criada desde pequenina a pão de ló com o único objetivo de um belo dia encontrar um príncipe abastado que viria para arrastá-la dali levando no tal arrasto a família toda para bem longe da penúria consolidada nos jogos de cartas do pai beberrão. Acontece que ele que de príncipe não tinha nada, um belo dia, quando ela estava na janela da torre do castelo, olhando aborrecida para o infinito, chegou de mansinho e falou: – “Ó bela dama, que estás tão serena a olhar para o nada, do longe venho eu e tenho fome e sede. Terias algo a me dar”?

A princesa já entediada, desanimada com o tal príncipe que nunca aparecia mesmo, convidou o tal estranho a adentrar, aproveitando um dos raros momentos que os pais não estavam em casa. Com o dito cujo já estatelado na cadeira da cozinha, notou ela que a impressão inicial de feiúra começava a dissipar-se e podia vislumbrar por baixo da cabeleira desgrenhada um até rostinho simpático, não fosse os olhos tão estranhamente caídos e levemente avermelhados. -“Tenho cá ovos e leite , se a pressa não for prioritária, façamos um bolo gostoso para saciar a sua fome de muitas andanças”, disse ela. “Enquanto coze a iguaria, poderemos saciar seu desejo de conversação visto que andas há muitos dias por estas terras  inabitáveis e deves estar sôfrego por quem o faça ouvidos. Se ainda assim ansiares por algo mais, posso eu”… atropelava-se nas palavras a princesinha , temerosa de não fazer-se compreendida, pois receava que o tal príncipe nunca viesse realmente e se o destino este gozador lhe reservara um andarilho sem eira nem beira ainda assim era bem melhor do que a vida estúpida naquele castelo horroroso com uma mãe histérica e um pai que ainda delirava com os áureos tempos das jogatinas e nos devaneios passava o dia na mesa como se estivesse em uma grande taverna rodeada de amigos, rindo, trapaceando, blefando.– “Estás a enlouquecer ou da loucura já nascestes acompanhada?”- Interrompera o visitante com os olhos chispando de raiva enquanto ela assustada ensaiava um sorrisinho nervoso e já  procurava  uma possível saída com o rabo dos olhos. –”Ovos? Leite?” –Vociferava ele. – “Sabes a senhorita do sofrimento pelo que são infligidos os pobres animais para  a sua egoísta satisfação palatina?  Do confinamento que as pobres galinhas são submetidas tornando-se assim um produto resultante de um processo industrial cruel e ganancioso? E do trauma incutido as coitadinhas das vacas que tem as suas crias tiranamente arrancadas de seus seios, neste caso de suas tetas? Com que autoridade interfere a senhora na natureza desta forma a causar sofrimentos tão devastadores? Julgar-se a Deus? Ou Deusa?” – Na primeira pausa que parou para tomar ar e poder continuar assim sua eloquente oratória, tomou-lhe em cheio um ovo no meio da testa, seguido de uma golfada de leite arremessado com fúria . Teve ainda um açucareiro desmanchado no coco da cabeça, já que o propósito original era o de um bolo ser preparado. –”Vá para os quintos dos infernos , volte para os confins das macegas de onde nunca deverias ter se aventurado a dar um passo. Dedico-me de corpo e alma a receber-te bem e vens com este trololó que até agora não entendi uma só palavra, mas vai que de louco em minha vida estou legal!” – Minha princesa”, abaixava ele um pouco a empáfia, quando mais um ovo o fez-se calar subitamente. – “O que quero dizer é que”..- outro ovo. 

Corria agora estabanadamente em direção ao portão debaixo de uma rajada de omelete. A mãe bem o alertara que o seu discurso vegan  não o levaria a lugar algum. Agora ia-se ele novamente. Sem vento, nem documento. Nem com uma princesinha linda daquelas. Mas com a honra das vacas e galinhas preservadas, consolava-se enquanto mastigava uma folha qualquer para aplacar a fome que lhe doía a barriga.

Moral da história do ponto de vista da princesa: A carência é mãe da roubada.
Moral da história do ponto de vista do andarilho: A ideologia é o cunhado mala da barriga vazia.

Foto Google.

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