Hey, teachers, leave those kids alone!

Para tudo na vida tem uma primeira vez, não? E acreditem ou não eu nunca em toda minha vida estudantil colei. Digo cola com prova material. Aquela do ajeitar a folha meio de ladinho para o colega espiar ou cutucar o colega da frente entre dentes “passa a dois, passa a dois”, já fiz muito. Na verdade mais passei do que pedi. Não querendo me gabar disto fazendo a linha intelectual “não preciso de cola”, mas é que tenho motivos mais do que justificáveis para isto. Fico uma pilha nestas situações. Aliás já deveria saber disto antes de me prestar à presepada de ontem. Eu havia estudado muito mas a realidade é que na última prova também havia , entretanto, um desencontro entre a minha linha de raciocínio com a linha de interpretação da professora me fez não ir tão bem quanto eu gostaria. Somado a isto a incitação dos colegas , notem aí que falei colegas e não amigos pois amigos verdadeiros não te induzem à corrupção dos seus princípios morais e éticos, lá foi a bocó aqui digitar em uma fonte minúscula dados que considerava chave para a bendita prova. Chegando na sala de aula por um breve instante pensei em retroceder e dar meia volta pensando ter me enganado de local pois o ambiente em questão lembrava Sodoma e Gomorra em plena destruição com todos falando muito ao mesmo tempo, mesas sendo arrastadas e trocas de lugares simultâneas para um segundo após serem desfeitas e…o caos. A professora entrou toda sorridente fingindo não notar que exatamente ninguém estava em seu lugar habitual. Creio que ela nutre uma simpatia toda especial por mim devido ao fato talvez de eu ser a tia da turma, e mais por falta de identificação com os demais do que por seriedade propriamente dita sou bem concentrada e comportada. Então quando ela me encontrou com olhos inquisitivos no fundão da sala, eu que normalmente sento na primeiríssima fila, brindei-a com um sorriso de desculpas como se gritasse: EU NÃO TENHO CULPA! Ela então ajeitou seus óculos de aro tartaruga, arrebitou ainda mais seu narizinho de marfim e com aquela sua vozinha de soprano resfriada bradou: VOLTEM AGORA MESMO PARA OS SEUS LUGARES! POR ACASO ESTÁ ESCRITO IDIOTA EM LETRAS GARRAFAIS BEM NO MEIO DA MINHA TESTA? Voltamos em um piscar de olhos, alguns mais descarados não sem antes dar uma boa conferida na tez alvíssima da mestra. Assim sendo, retornei em derrocada para o meu assento, me amaldiçoando pela escolha dele lá no início do ano letivo e pela minha péssima mania de ser a certinha em tudo, mania esta, eu sei, ainda vai acabar me matando.
Deu-se início a partir daí a um dos momentos mais angustiantes de toda minha existência. Em um breve lampejo de consciência veio-me ao pensamento a imagem de Russell Crowe no papel de Maximus no filme O gladiador e sua célebre frase “O que fazemos em vida ecoa em eternidade” seguida de uma imagem futura de meus netos colando para a prova de Cibernética III isto ainda no prézinho e eu cabisbaixa, diminuída, com o remorso galgando a unha do pé, fazendo vista grossa ao flagrante, sem moral sequer à um simples muxoxo. Mas como normalmente estes relâmpagos intuitivos são aniquilados por uma idéia de quadrúpede lá fui eu cometer a segunda estupidez da noite: colocar o papel dos infernos sobre a folha em branco dada pela professora onde deveriam constar as respostas das questões que ela nos mostraria tão logo conseguisse montar a salvadora tela de imagem. Enquanto ela pelejava com o aparelho eu ajeitei a dita cuja de modo que os dizeres não refletissem por baixo da folha em branco. Tudo bem, tudo certo, as perguntas surgiram na lousa e a professora virou-se para nós ameaçadora como se avisasse eu não estou para brincadeira. Fui acometida então por um ataque de tremedeira que não se igualou nem de perto ao de quando estive entre a vida e a morte resultante de uma catapora recolhida aos treze anos de idade . Muito pior, é claro. Tinha a impressão que a professora conseguia escutar meus dentes batendo violentamente uns contra os outros e a qualquer momento viria me examinar estranhando meu tom de pele que mudava de escarlate carmim intenso para branco neve total em questões de milésimos. E o mais bizarro de tudo: eu sabia todas as respostas das perguntas que piscavam em neón no outdoor que balançava na árvore em frente. Pisquei os olhos aturdida, recobrando-me à tempo do devaneio e aproveitando uma brecha da professora que atendia à uma pergunta ordinária de algum abençoado colega para retirar o oculto miserável que dilacerava meu peito de tanta aflição. De posse do elemento nada mais inteligente ocorreu-me a não ser amassá-lo e acobertá-lo entre os dedos com a mão estendida sob a mesa. A professora voltou ao seu posto no front e minha tremedeira deu lugar a uma enorme vontade de morrer. Descrevo isto agora como se estas cenas tivessem se desenrolado muito rapidamente mas a verdade é que quase um quarto de hora havia se passado e eu ainda não tinha escrito uma só mísera linha acerca dos meus conhecimentos e pior me portava como uma verdadeira psicopata em pleno surto. Novamente uma trégua por parte da professora que virando-se para exigir a prova de um colega pego em incontestável ato de espionagem , causando-me é óbvio uma taquicardia ensurdecedora mas ao mesmo tempo me proporcionando o favorecimento de pegar a buchinha de papel que diminuía a cada susto como o ocorrido há pouco e enfiar pela manga do casaco que eu usava na ocasião. Jamais em toda minha jornada esquecerei deste casaquinho preto ,todo cheio de bolinhas de lã que teve sua carreira encerrada com méritos e glória dignos de medalhas. Um pouco mais refeita da tão sobressaltada situação desandei a escrever travando uma verdadeira maratona contra  o relógio cujos ponteiros voavam e os obstáculos , trincheiras, cones que tentavam bloquear as respostas que dantes pareciam tão próximas. A verdade é que terminei a prova em cinco minutos. Veio daí o conhecido horror que já estava virando figura carimbada naquela noite fatídica. Aliás, alguém ainda tem mesmo dúvidas que uma boa história de terror sempre acontece a noite? Sem mencionar o fato que fazia um frio de cortar e lá fora o vento uivava nas copas das árvores. Apavorei-me ante a possibilidade do papel cair enquanto eu entregasse a prova. Apavorei-me ante a possibilidade de um maníaco entrar atirando na sala. Apavorei-me com as presas que saiam gigantescas da boca da professora e de garras que davam lugar à suas unhas tão bem manicuradas. Estava em um estado tão intenso de pavor que nem me dei conta que só restavam eu e ela na sala, esta já procurando com o rabo dos olhos uma saída emergencial caso a coisa toda chegasse aos extremos. Recompus-me o melhor que minha última dignidade o permitia e segurando as mangas do casaco com a ponta dos dedos fingindo sentir um frio equivalente às geleiras da Patagônia marchei rumo à mesa da docente. Ela deve ter desconfiado pois eu normalmente tão calada e retraída desandei a falar feito uma maritaca, sobre o tempo, sobre o frio, sobre a prova, sobre a crise mundial e o efeito estufa, e após vomitar todo meu nervosismo e sem dar chance da pobre se recuperar da avalanche de palavras girei para a porta da rua sentindo mil quilos em cada perna e fechando esta com um grande estrondo, limpei as gotas de suor que inundavam meu rostinho sem-vergonha. Quando me vi do lado de fora, saquei do maldito papel e de raiva engoli-o quase sem mastigar. Aliviada então, percorri o corredor que levava à cantina de joelhos para pagar uma promessa que havia feito durante o ocorrido, proferindo em voz alta: Nunca mais farei isto, nunca mais farei isto, nunca mais farei isto. Está bem, esta parte é mentira.

* Publicado originalmente em Salsa Parrilha- 16/05/2009

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Foto Google.

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