Cores

Hoje me veio a lembrança a primeira vez que estive em uma loja de doces. Antes de narrar todo meu deslumbramento deixe-me lhe contar, caro leitor, de minha infância. Um pouquinho só. Não, não irei aborrecer-lhe com mais uma história de penúria e sofrimento. A vida já nos encarrega disto diariamente. Se não fui uma criança rica por outro lado também não posso me queixar de ter sido uma criança pobre. Não faltou-me o pão de cada dia e sempre tive por perto os livros, companheiros para uma boa existência. A vida entretanto era, digamos assim, em preto e branco. Nasci em um povoado com umas cento e tantas casas segundo o último censo, isto significa que a época em que lhe remeto, este número deveria reduzir-se a metade. Portanto, da vida simples e bucólica a qual passei meus primeiros anos não me recordo muito das cores. Claro, havia muito verde, na verdade havia um bocado dele. Para onde quer que eu olhasse o verde imperava. Das grandes palmeiras aos  campos verdejantes sem fim. Costumava ficar olhando horas para eles e tentando imaginar quem viveria naquelas pequeninas casinhas que eu enxergava ao longe onde os campos se encontravam com as montanhas cinzentas. Em um mundo paralelo que eu criara a parte, imaginava pessoas barulhentas, coloridas e loucamente felizes. Crianças brincavam empinando pipas das mais diversas cores enquanto as mães estendiam roupas nos varais em uma profusão de tons radiantes. Ficava por vezes, manhãs a fio, nessa doce letargia até repentinamente abrir os olhos e constatar as casas ao meu redor. Eram na maioria brancas com janelas marrom. As poucas pessoas que passavam na estrada empoeirada e cheia de pedregulhos pareciam apagadas, sem brilho. As crianças assim como eu trajavam roupas surradas pelo tempo, uma que outra menina ostentava um laço cor de rosa nos cabelos trançados e alguma moçoila ousava em um ruge carmim as bochechas. Mas como explicar-lhes que não era algo assim, vivo? Creio que éramos todos desbotados. De colorido mesmo eu tinha três livros capa dura que herdara não sei de quem. Imagino hoje que meu pai os comprara de um mascate que andara por aquela região quando eu ainda dava os primeiros passos ou talvez eles já estivessem na família havia algumas gerações. Não lembro. Gostava no entanto de ficar com eles na relva verde sob o sol fantasiando acerca de sua aparição sem a menor vontade de satisfazer a minha curiosidade, eis a verdade. Um era vermelho, outro azul e o terceiro ( sim, eram numerados) verde. Mas não o verde pálido que me cercava. Era um verde cintilante, vívido. E dentro deles um mundo mágico se escondia. Princesas coradas em vestidos furta-cor. Cavaleiros em armaduras reluzentes. Mágicos que tiravam da cartola pombos azuis e flores amarelas. Até mesmo as bruxas usavam vestimentas em um roxo vibrante. Por muitos anos aqueles  livros foram a minha fuga quando o mundo tornava-se por demais sombrio. A vida adulta e o abandono da vida pacata me distanciaram deles. Não sei que rumo tomaram. Para falar francamente não sei nem de meu próprio, perdida que ando por aí. A loja de doces no entanto, me fez reviver estas antigas sensações. A encontrei pequenina e escondida, espremida entre um grande magazine e uma loja de produtos naturais. De longe avistei aqueles minúsculos pontinhos coloridos que me fizeram de imediato lembrar das casinhas que eu observava ao longe. Quando me aproximei foi como se todos os personagens dos livros de capa dura saltassem para fora e dançassem alegremente me convidando a entrar. Não resisti o convite. Entrei. Com um aceno dispensei a atendente pois só queria olhar. Não cumpri o prometido. Toquei todas aquelas cores. Sorri. Chorei. Dancei com todos eles. Talvez ela e tantos outros que por ali passaram estranhassem meu comportamento. Contava trinta e oito anos e voltava a ser feliz por alguns momentos.

 

Imagem

Foto:Google.

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