Álbum de figurinhas

O senhor poderia fazer a gentileza de me informar se na compra das figurinhas ganhamos também o álbum?- Perguntara a menina com o rosto corado, muito orgulhosa de si, pois não errara uma palavra sequer daquela frase que ensaiara praticamente toda a manhã enquanto apontava para o cartaz tamanho gigante que tomava o espaço de toda uma parede onde cinco garotos sorriam anunciando uma promissora formação de banda de música adolescente. Era sem dúvida uma das frases mais longas que falara a um desconhecido em todos os seus onze anos de vida e só os deuses sabiam a quanto custo criara coragem para estar ali defronte daquele jovem atendente de papelaria que a olhava encantado em um misto de curiosidade e diversão. 
 A papelaria ficava em um centrinho comercial onde encontrava-se a estação rodoviária da cidade e somando-se a todos os outros estabelecimentos formava-se então um círculo dos mais diversos pontos, incluindo área de gastronomia e uma loja de produtos agrícolas. Na primeira tentativa que a menina fizera para conseguir o seu intento, ao olhar de soslaio além da vidraça da papelaria para o balcão de atendimento deparara com um velhote de barriga saliente e rosto bexiguento, que mastigava ruidosamente um palitinho trazendo a ponta para o canto da boca e carregando consigo um olhar duro e rapino de poucos amigos. Acometida de um ataque de pânico, apressara-se a entrar na lanchonete ao lado na esperança de fugir daqueles olhos cruéis. A mocinha no balcão de sucos perguntara sorridente o que era para esta menininha tão linda e só ganhara em resposta um olhar acanhado subitamente desviado para os próprios tênis surrados. A atenção da rapariga voltara-se então para um cliente novo que adentrava no estabelecimento, o qual a menina viu com o canto dos olhos tratar-se do dono bexiguento da papelaria que viera logo atrás dela, e não sem antes certificar-se aliviada que o pedido do velhote iria retê-lo um bom quarto de hora até o preparo e o consumo, girou nos calcanhares e marchou novamente para a papelaria. O atendente desta, um rapaz mulato de olhos verdes brindou-a com um sorriso de dentes muito brancos, achando muita graça daquela garota com ares interioranos trajando roupas que já haviam visto dias melhores e uma vergonha tanta que não conseguia sustentar o olhar por dez segundos sequer. Depende.- Dissera ele então – Quantas embalagens de figurinhas você vai levar? – Implicara ele enquanto notava divertido que o calor inundara seu rosto muito branco e o deixara em um escarlate vivo. – Apenas um. É possível?- Arriscou ela um olhar furtivo causando no atônito atendente uma descarga de cumplicidade – Na verdade não – Emendando rapidamente enquanto cuidava a porta de entrada rezando para que o dono demorasse para retornar  – Mas se você me prometer que vai colecionar e comprar mais tão logo possa, quem sou eu para negar? – Terminou com um sorriso encorajador. – A menina devolveu um sorriso triste. Não poderia prometer-lhe que continuaria a coleção, mas faria um esforço maior em suas orações ao seu anjo da guarda, ele certamente intercederia ao seu superior e a ajudaria encontrar alguma forma de ganhar algumas simples moedas, pensara. Seu Anjo, como costumava lhe chamar agia de uma maneira muito estranha para um anjo.- Mas oras, como um anjo deve agir menina? – Ralhava a mãe, quando nas poucas vezes disponibilizava os ouvidos às bobagens de uma criança e dando com isso um fim ao colóquio infrutífero no seu ponto de vista.  Achava a menina que o anjo deveria agir mais diretamente e não deixar dúvidas de suas boas ações. Como uma feita que fora ela convidada para integrar um novo clubinho de meninas, ela que nunca era chamada para nada pois não era dada a muitas conversas e vivia em um mundo só seu que assustava os colegas . Justo neste dia a mãe precisara sair para visitar a irmã adoentada e era preciso que alguém ficasse em casa para atender ao pai que trabalhava em uma plantação perto e volta e meia aparecia em casa para um café ou uma ferramenta faltante. Não entendia o porquê dos homens não serem auto-suficientes e necessitarem daquela atenção toda, mas não querendo contrariar a mãe sempre tão nervosa e atarefada, consentiu em ficar lá sentada na frente de casa olhando o movimento das meninas no pátio da igreja, umas dez casas a frente da sua , onde realizava-se o primeiro encontro. Ficava olhando aqueles pontos coloridos correndo e brincando volta e meia escutando uma sonora gargalhada que ecoava pela rua fazendo o seu coração se contorcer de dor frente à oportunidade perdida. Quando a mãe apontara no portão no final da tarde mal houvera tempo para um não em resposta ao seu pai esteve em casa e já se precipitara rua acima fazendo voar pedregulhos por toda parte. Nenhum sinal de crianças no pátio da capela, mas o terreiro ainda guardava lembranças das brincadeiras. Restos de papel crepom utilizado para fazer saias para as bonecas e um barquinho feito com um folheto antigo de leitura da missa que fora realizada em um dos muitos domingos matinais. A menina ainda trazia consigo uma folha de papel em branco e lápis de cores, única exigência da presidente do clube, uma ruiva sardenta que deveria ter a sua idade porém nem a metade de sua altura. Sentara-se na grama e pusera-se a desenhar usando as pernas como aparador de tela. Tinha poucas cores nos tocos de lápis já muito gastos e seu desenho não retrataria um dia ensolarado e grandioso como imaginara. Olhava para a rua abaixo e desenhava sua velha casa com a estrondosa figueira fazendo sombra, e quando já resignada ia colocar as nuvens no céu, um vento forte soprara e empurrara um gravetinho pequeno que ela ao longe reconheceu ser um diminuto e perdido lápis de cor. Felicíssima o tomou e desenhou o maior sol amarelo que já havia feito e sentiu naquele momento que Seu Anjo era realmente um trapalhão mas estava sempre por perto e a amava muito. – Então? – Repetia o atendente esgueirando olhares para a rua enquanto estendia um álbum colorido e um maço de figurinhas- Negócio fechado? – Ela voltando do seu mundo anuira com a cabeça apressadamente enquanto estendia as moedas que encontravam-se todo o tempo muito bem protegidas na mãozinha pequena e suja de criança quase mulher. Murmurara um agradecimento, pegara do álbum e disparara para a porta da rua, sem antes porém parar subitamente e virar-se uma vez mais e olhar pela primeira vez firme e demoradamente para o Seu Anjo que a presenteava uma vez mais com seu sorriso franco de dentes muitos brancos.- Obrigada, dissera ela feliz. – Sempre, respondera ele com os olhos.

 

Publicado originalmente em 19/05/2010 em Salsaparrilha.

 

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