Contra a insônia…palavras. Ou números.

Desejou-me boa sorte a moça do caixa, com um ar cúmplice do qual não me escapou despercebido, um tantinho de piedade. Por um instante nossos olhares se encontraram. Nos dela captei como já disse, esta pequena comiseração. Teria ela captado nos meus uma súbita generosidade que nunca me foi inerente? Pois fiquei por um breve momento, generoso. Prometi mil benevolências a toda humanidade caso acertasse aqueles números sendo a maior beneficiária aquela simpática mocinha . Pensei que ela ficaria muito contente se eu a presenteasse com um tratamento de pele para livrá-la daquelas manchas gigantescas  que lhe cobriam todo o lado esquerdo de sua face. Não diria abertamente que seria para isto, mas imaginaria uma forma de regalar-lhe  o tratamento de forma a não deixar -lhe constrangida.  Chegaria para ela dizendo algo como olá, lembras de mim, pois então, enfim acertei, quase dez anos apostando os mesmos números e enfim a sorte me sorriu, sim, a sorte, não alguém que vive acima e nos quer bem pois desta forma não seria eu, um velho arruinado que cairia nas graças dele  ao invés de tanta gente que sofre e merece muito mais que este que vos fala. Talvez omitisse a parte do velho arruinado por uma questão de vaidade, talvez trocasse por outra definição menos impactante e com a qual ela pudesse se identificar, um trabalhador cansado, um guerreiro extenuado, talvez. Talvez. Nunca fui bom com as palavras. Ela sorriria e falaria algo como imagina o senhor é merecedor  e outros enaltecimentos a minha figura que me fariam um tantinho bem, sempre o fazem mesmo que nem sempre sejam de todo verdadeiros. Então eu sacaria de um envelope que traria dentro do amarrotado casaco, esperando que ela não notasse os costumeiros trajes desgastados pois certo é que  há de se estranhar a quem acerta os números e  não fosse de  providência primeira sair a  comprar uns panos decentes mas  gozava eu de uma urgência muito maior, que não saberia como explicar a ela, era uma urgência de colocar-me no lugar dele, aquele em que todos os demais acreditam exceto eu próprio. Aquele para o qual todos suplicam na escuridão do quarto, na turbulência do monomotor, no descarrilamento dos trens, na falta do pão na mesa, no olhar faminto dos próprios filhos. Também aqueles que pedem para passar nas provas, conseguir  a vaga no emprego, ganhar a rifa do televisor. Devido a estes pensamentos, não conseguia conceber a intervenção dele nos meus números pois se fosse me enquadrar no rol dos pedintes o faria no segundo time de miseráveis já que não padecia de nenhum adjutório emergente. Não que achasse mesquinharia das pessoas este tipo de súplica, os seres humanos eram assim mesmo, egoístas, presunçosos, vivendo em uma eterna indolência como se nada mais tivesse importância a não ser seus malditos umbigos com  crostas de sujeira dentro. Achava era tolice pois  no lugar dele daria  risada destes tipos pois ora se iria deixar de contribuir com quem realmente padecesse para ajudar um arrogante folgado. Maldito todos, vociferava silenciosamente. Por isto não pedia. Nada.  Não precisava e ainda agradecia a ele esquecendo-se  por vezes que não acreditava. Por não precisar. Uma bobagem, não que ganhar nos números fosse uma bobagem,  o era muito bom e importante mas não era imperativo. A fome, a doença, a morte o eram. Assim, considerava um golpe de sorte apenas, golpe este que me permitiria desempenhar o  seu papel  em algumas situações. Ajudar quem julgava merecer por exemplo. E a mocinha do rosto manchado era uma delas. Não chegava a ser de todo feio aquele rosto, não fosse a extensa mancha cor de rosa que alastrava-se de uma ponta a ponta, chegava até a ser simpático. Em todos aqueles anos nunca ousei perguntar o que acontecera, se fora fruto de algum incidente ou mesmo de nascença. Algo me dizia que ela já havia respondido aquela curiosidade por vezes suficiente nesta vida e apesar de todos meus  vícios e defeitos que acumulei em uma existência, a gentileza para com os mais desfavorecidos conseguiram, de certa forma amenizar todo o resto. Talvez ela tenha realmente captado isto tudo em meu olhar. Talvez só tenhamos trocado compaixão, afinal das contas. Imaginávamos cada qual  com sua vida infeliz esquecendo de nossas próprias existências amargas. Ela penalizada por meus muitos números , a única esperança em uma vida quase tão sem palavras. Eu comovido com suas manchas que escondiam um rosto quase belo, uma vida quase boa, uma felicidade quase real. Peguei o bilhete e voltei para mais um dia desgraçado suspirando pela noite e a extração que seria comunicada pelo radinho de pilha que eu carregava sempre comigo, companheiro de um trabalho e de uma vida tediosa. Senti ainda vontade de voltar e dizer a ela que eu tiraria suas manchas mas não consegui. Não conseguia nem tirar as minhas próprias que toldavam meu coração e meus olhos que marejavam. Bolas, por isto preferia os números. Eles eram frios. E exatos.

 

 

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Poeminha de outono

Então é outono

e eu resolvi retornar

para encontrar

a outra em mim

se alguém a vir

andando por aí

não tenham medo

lembrem-se : é apenas um arremedo ( arremedo, é preciso dizer baixinho para o medo passar)

e sendo assim eu voltarei para ela ou será ela que voltará para mim?

Mas isto tão somente quando a primavera chegar…

 

Imagem

 

Foto: Google.