Nove beijos e uma história

Das lembranças que trago de meu pai a mais viva com certeza é a lembrança dos nove beijos. Lembro dele me pegando ao colo sem nenhum esforço, e olha que sempre fui destas crianças bem alimentadas do interior, perguntando: – “quantos anos, hoje”? – eu, menina tímida, não o suficiente para deixar de encarar aquele azul de oceano a minha frente que eram os seus olhos e responder toda prosa: -“Nove”! – Com isto recebendo nove beijos, um em cada lado do rosto, estalados, carinhosos, um, dois, três, quatro…nove! Anos mais tarde por muitas vezes me peguei a contar “um, dois, três, quatro…nove” em situações de medo , em situações de desalento, em situações de tristeza , seja buscando a coragem, a calmaria, a esperança, ou mesmo em situações de alegria por puro agradecimento. Fecho os olhos hoje e consigo sentir seus lábios úmidos em minha face, sua barba por fazer roçando minhas bochechas, seu abraço apertado , seu calor. Tudo isto me traz uma sensação tão forte de plenitude, de êxtase, de felicidade. E dura o tempo exato dos nove beijos. Depois, depois quando a vida vem em toda sua impetuosidade, arrancando-nos de nossos sonhos e exigindo-nos que fiquemos acordados, é com a lição dos nove beijos deixada por meu pai que eu consigo enfrentá-la e manter-me em pé.

Trago ainda muitas outras recordações dele, a maior parte belas e doces como esta. Histórias de terror contadas ao redor do fogão a lenha em noites frias do inverno no Sul, presentinhos bobos quando da ida a cidade, um doce, uma fita para o cabelo. Um segredo ao pé do ouvido: “comprei uma enceradeira ( alguém hoje sabe o que é isto?) para tua mãe, vai chegar em poucos dias, não conte nada a ela, é um segredo nosso”- e eu enlouquecida por aqueles dias, cuidando todos os caminhões, em nada costumeiros, que desciam pela larga estrada de chão que cortava aquelas terras. As recordações um tanto amargas, a adolescência difícil, distanciamento, mágoas, mundos que se separavam devido a uma presumida diferença de idade, talvez ideais opostos ou mesmo a forma de cada um ver a vida. Eu achando que sabia tudo, ele que não tinha mais nada a saber. Ele entendendo o mundo a seu modo, eu querendo entender o mundo, apenas. Duas almas tão próximas e tão afastadas em suas teimosias. Silenciamo-nos. Ficaram só as lembranças. De como ele achava importante eu sentadinha a mesa da cozinha escrevendo. Não bonito, não engraçadinho. Importante. E com esta importância toda ele pegava os meus rabiscos e mostrava a todo visitante em nossa casa. Acho mesmo que nunca leu um texto meu ou tenha tido o interesse de pedir-me que eu o fizesse em voz alta. Ele gostava mesmo era daquele monte de letrinhas empilhadas , achava importante como bem dizia as pessoas, a minha caçula gosta de escrever, emendava com uma pontinha de orgulho. Talvez isto suprisse a sua própria falta de intimidade com as letras, resultado de uma infância pobre e órfã onde a duras penas conseguira ler e escrever. Um pouco. Lembro dele assinando seu nome vagarosamente em alguns documentos, boletins da escola. Em outras ocasiões lendo alguns folhetos da igreja ou atas do sindicato a qual pertencia. Talvez o fizesse bem mais do que eu perdida em meu mundo, o notasse . Também eu nunca tivera o interesse em perguntar-lhe. O que condenamos em nossos pais em parte serve como escudo para amenizar nossas próprias faltas , isto aprendi com o passar dos anos e muitos livros de psicologia depois.

Dias destes remexendo em uma caixa com fotos antigas, a encontrei. Uma carta, completamente amarfanhada em um papel amarelado não sei se pelo tempo ou se algum dia ela já teria visto uma cor mais viva, escrita a lápis e portanto, um tanto quanto desbotada, ainda com alguns pedacinhos desgastados e faltantes. Era uma carta escrita pelo meu pai a seu futuro sogro, meu avô. Uma carta pedindo a mão de minha mãe em casamento. Com uma letra desenhada e uma preocupação notória com rimas, quase infantis. Sorri, entre lágrimas, tendo a confirmação que meu amor a poesia foi herança dele, meu pai. “Hoje eu tive o prazer, pude na pena pegar”, começava ele sua missiva. Fiquei sonhando com aquele tempo que eu nem existia, com avós que nunca conheci, com minha mãe, o quanto deve ter ficado feliz com aquele pedido tão romântico, com meu pai se esforçando para escrever e lendo, relendo muitas vezes o seu feito como eu própria faço quando dos meus escritos, temeroso se iriam bem interpretá-lo, mas no fundinho, satisfeito com sua obra . Desejei do fundo do meu coração que chegasse até ele meu pensamento de que também eu achara importante. Não bonito, não engraçadinho. Importante.

De alguma forma, ou pode ter sido impressão apenas de uma pobre escritora que vê o mundo em prosa e verso, mas de alguma forma sim, acho que ele deve ter recebido meu recado pois um vento fresco adentrou o ambiente em que me encontrava, farfalhando a carta em minhas mãos suavemente contra minhas faces ruborizadas de emoção e pude sentir uma vez mais um daqueles nove beijos que marcaram minha vida.

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Por um mundo mais gentil

Inteligência e bom humor são virtudes que eu prezo no meu próximo. Se tiver uma inclinaçãozinha para os escritos eu me apaixono. Agora, gentileza é algo que me desarma por completo. Eleva ao status de nobreza suprema o maior troglodita da face da terra. Assim como a falta dela releva a um nível inferior alguém que até então você admirava. E isto vai muito além de subserviência, adulação barata ou favores interesseiros. Falo da gentileza em sua essência. Reconhecer que errou, pedir desculpas, resolver mal entendidos, torcer pelo sucesso de alguém, ficar feliz com a felicidade do outro, não julgar, não criticar, sorrir, vibrar. Tudo isto é ser gentil. Receber um carinho, uma palavra amiga, um incentivo é tão, tão, tão gostoso…e assim, descompromissadamente é tão, tão …gentil! 🙂