Poesia Insone

Aos que dormem profundamente
O sono dos inocentes
Não sonham (ou sonham afinal) quão agraciados são.
Oh Deus! Que divisão malfadada!
A uns uma dádiva ofertada
A outros, a compensação:
Verás o mundo de maneira
a te amenizar o sofrimento
Mas esta mesma calmaria
Que te acompanhará os teus dias
A noite será teu tormento
Terás o pensamento tomado
Coração agoniado
Totalmente despertado
Extravassando poesia.

Tu

Eu te  conheço bem mais do que simplesmente teus olhinhos cálidos e teus cabelos com fios dourados a luz do sol. Tuas covinhas quando teu sorriso se alastra e teus lábios em um biquinho enquanto balança o lápis de cor frenéticamente de um lado ao outro , decidindo então qual tom ficará melhor para o vestido da princesa de cabelos cor de ébano. Preocupa-me o saber se tu gostarás ou não de mim. Aprovarás ou não o meu modo de ser,  agir e pensar. Gostarás dos meus escritos ou os acharás tolos e os esquecerás em um canto qualquer de teu quarto. Todas estas tolices me vem à mente para depois um dar de ombros despreocupado, tu não és assim, eu bem sei. Por que então estas reflexões insistem em martirizar o meu espírito? Não disseram-me que seria assim. Eu era tão livre em meus pensamentos que não lembro-me sequer com o que  minha mente ocupava-se outrora.

 Eu sei que quando acordas pela manhã gostas de resmungar e abraçar o travesseiro. Repele-me quando te abraço, mas é puro fingimento inicial , sem abrir os olhos mas com o sorriso estampado vira-se e corresponde carinhosamente. Sei qual é o teu cereal favorito, teu desenho predileto e o nome de teu amigo imaginário. Sei que  gostas de cães, gatos e se pudesse sairia de gaiola em gaiola soltando todos os passarinhos presos do mundo. Sei que te encantas pelas letras mas tens um ouvido apurado para a música e ao mesmo tempo a lógica da matemática a fascina,  dilacerando meu coração,  o que será desta menina meu Deus? Sei que as vezes  te perdes em sonhos e devaneios,  lembrando-me eu mesma em tempos tão distantes , e que sinto vontade nestas horas de realizá-los todos,  mesmo os mais inconcebíveis, para em seguida pensar que não se faz assim, o que foi lido mesmo, em algum livro de psicologia, ou dito pelas tias velhas, ou auscultado furtivamente nas salas dos consultórios médicos, não se faz assim, há de frear-se ,o mundo não é um mar de rosas, há de preparar-se para a vida…

 Eu sei todas as tuas vontades, tuas manhas, tua gula por doce de abóbora com muito coco ralado, sei do teu coração imenso e tua vontade de conhecer o Nepal.  Sei de tua necessidade de abraçar o mundo, de tua ojeriza a pimentão e de tua dificuldade em soletrar paralelepípedo. Eu sei tanto sobre ti  e tu nada sabes sobre mim. Já passei tantas vezes por ti, nas ruas, nas praças, nas esquinas e tu nunca pareceu me notar. Não importa, não importa menina, isto não é uma cobrança. Quiça , apenas uma constatação. . Um dia, um dia quem sabe,  algum destes anjos tristes que  andam por aí ,  destes cabisbaixos,  perdidos em suas próprias angústias assim como nós, mas não a ponto de deixar de  solidarizar-se com nossas tristuras, algum destes,  haverá de tocar as  mãos em teu rostinho lindo e o virará suavemente assim como o vento nos revira o cabelo em uma tarde de outono e tu  então me enxergarás  e juntas de mãos dadas poderemos enfim  voltar para casa.

Postado há 19th May 2009 por Anna Claudia

anjinha

Foto: Google.

Memória de Natal

Não, não foram sinais precoces de decoração natalina pois ainda não os vi, apesar de quê, basta fazer as contas com os dedos de uma só mão para saber que eles não tardam a se mostrar. O que me fez lembrar da época que nos deixa mais “sentimentalóides” foi um conto que li hoje , de Truman Capote, escrito em 1956 entitulado “Memória de Natal”.

Dizem que um bom texto, um bom livro, não é aquele avaliado em seu momento derradeiro, em suas palavras finais. Um bom escrito é aquele que faz seu coração enternecer já à primeira página, e de enternecido passa a bater avassaladoramente, para voltar quase que no mesmo instante a ficar pequenininho, pequenininho,engrandecendo em um repente a ponto de não caber mais no peito e transbordar em lágrimas correntes.

Meu relato pode até carregar um tanto de exagero àqueles que não vêem a vida da mesma forma póética que a vejo (como fazem?), mas foi exatamente isto o que senti ao ler suas palavras. Um misto de euforia com tristeza. Uma nostalgia. Melancolia em letrinhas miúdas.

Cometeria um pecado imperdoável aqui se tentasse resumir o conto. Fico tentada tão somente a deixar-lhes uma provinha contendo: bolo de frutas, uma amizade verdadeira, os anos 30, uma Terrier corajosa, uma velha casa com um belo forno preto. Tangerinas japonesas, se ainda me concedem a atenção.

Deveria ter devolvido o livro hoje para a sua estante na biblioteca. Não o fiz. Quis trazer uma vez mais Buddy e sua amiga para casa. Quis saborear cada palavra. Quis lamentar a cada página devorada ( o fim eminente), quis suspirar ao final com muita , muita saudade. Saudade nem sei do quê. Talvez devesse contar desta minha impressão mais próximo a data, mas não gosto de esperar. Tenho urgência em viver. Não deixemos os Natais para depois. Sempre é tempo de Natal. Sempre é tempo de bolos de frutas e pipas ao céu. Assim é viver. E é assim, é assim que um bom livro deve ser.

( Memória de Natal (1956) é o terceiro conto que encerra a obra Bonequinha de Luxo- Truman Capote- (Breakfast at Tiffany’s) ,uma história auto biográfica, dizem.

natal

Meu querido Diário

 Houve um tempo em que tinha ela um diário. Enchia páginas e páginas por dias para depois rasgar tudo em pequenos pedaços, não sem antes rabiscar com caneta hidrocor todas as palavras até se tornarem ilegíveis. Afora isto ainda espalhava os diminutos papéis por todos cantos da chácara onde vivia. Naquele tempo ainda não existia estas campanhas de agora, preserve o meio ambiente, mantenha limpa a sua cidade entre tantas outras. Mesmo porque não vivia ela em uma cidade. Era mais um povoado, contando aí umas oitentas casas. Conhecia-se toda a gente moradora dele. E também seus pertences, suas roupas , seus hábitos. Só não era de conhecimento geral os costumes, cismas e paranóias. Sendo assim então ninguém desconfiava que possuía ela um diário. Não lembrava , entretanto, o que tão abominável era o que escrevia nele para eliminar tão metodicamente todo e qualquer vestígio dos momentos registrados. Deveria ser  paranóia mesmo, bem resolvida visto que hoje o que escreve qualquer pessoa no mundo tem acesso. Lembra somente de um único acontecimento. Era ela  platonicamente apaixonada pelo seu vizinho, isto é pelo filho do seu vizinho e preferiria a morte a alguém descobrir este seu segredo. Quisera ela contar aos quatro ventos da sua  louca e arrebatadora paixão, mas constatara desoladamente que não o poderia fazer correndo o risco de tomar uma sova daquelas de seu pai por tamanha leviandade precoce. Pensara então em contar para uma pessoa, uma única pessoinha apenas para dividir aquele pesado sentimento que lhe devastava os sentidos, mas por eliminação as pessoas com quem ela trocava uma idéia à época não eram as mais indicadas para a partilha de um segredo tão solene e profundo. Sua mãe levaria ao seu pai, isto certamente após recuperar-se do ataque de riso a qual fosse acometida. O padre a mandaria rezar três padres-nossos e cinco ave-marias, e sua professora, bem, ela era a irmã do protagonista daquele enredo amoroso. Pronto, falei. Sendo assim nada mais lhe restava senão contar tudo ao sempre seu melhor amigo de todos os tempos: um caderno velho sem espiral cuja primeira página era tomada por umas flores horrorosas desenhadas por ela  que nunca levara o menor jeito para as aulas de Educação Artística e onde , em uma tentativa de letra imitando os antigos pergaminhos, psicografara: Meu querido diário. Nele, descarregava o coração,  lavava a alma, tirava toneladas de pedras que lhe curvavam os ombros. Isto durante as madrugadas insones.  
 Uma manhã, levíssima, tomara seu café e rumara à escola feliz, feliz. O ruído do giz na lousa era trilha sonora para suas fantasias mirabolantes acerca do seu  romance com o tal rapazelho, a estas alturas, desmacarado. Carregava ainda um sorriso débil nos lábios quando uma cena fulminante que só poderia ser um sinal dos céus ou um aviso dos infernos para chegar assim tão subitamente furou o bloqueio de suas defesas mentais tão bem construídas em sua cabeça de nove anos. Via sua mãe irrompendo quarto adentro, levantando o colchão da cama e descobrindo seu segredo tão bem infiltrado sobre o estrado da cama. Enquanto apoderava-se do seu  mundo misterioso, sentia-o  resvalar para uma grande cratera onde era ela engolida junto a um mar de lama, vergonha e devassidão. Sem sequer tentar lutar contra a impulsividade com a qual mais tarde travara batalhas por toda sua vida, empurrara a cadeira que acabou caindo estrondosamente causando assim um alvoroço na turma toda e trotara estrada afora rumo a casa que ficava bem próxima da escola mas que subitamente parecera ficar a anos luz de distância. Irrompera porta adentro, completamente esbaforida, para encontrar sua mãe calmamente sentada à mesa da cozinha , concentrada na minuciosa tarefa de escolher o feijão para o almoço ,e, como sendo a coisa mais normal do mundo, nove horas da manhã ela estar em casa, erguera os olhos desinteressada: – “Ah, és tu? ” – Não pudera  deixar de pensar ela, um tanto aborrecida, enquanto atravessava um longo corredor até seus aposentos de como surgira a idéia que ela, sua mãe  iria ao seu quarto bisbilhotar sua vida, ou que sairia do seu mutismo habitual para rir às gargalhadas de suas tolices. Já no quarto suspirara aliviada junto ao seu amigo, ajudando-o a sair de seu esconderijo. Rira extasiada, vertera lágrimas oprimindo ele em seu peito, rodopiara  alegremente pelo quarto. Eram dois amantes felizes, cúmplices em seus segredos mais sórdidos. Deitaram-se  lado a lado em sua cama e assim um quarto de hora se passara sem que o mundo os apercebesse, embriagados que estavam  em seu deleite confidencial. Aos poucos porém, a realidade foi se fazendo notória e era preciso voltar ao mundo normal onde seria preciso desfazer aquele laço fraterno. Olhando para seu companheiro fiel procurara nele desculpas para sua própria fraqueza . Poderia dizer que sua complacência bovina a enfadou. Que seu silêncio infinito a sufocou. Ou simplesmente achara que era ela boa demais para dividir seus mais loucos segredos com ele. Poderia colocar todas suas culpas, medos, fracassos nele, pois saberia que ele jamais revidaria mesmo sabendo de seus segredos escabrosos pois era seu amigo e não faria nada para lhe magoar. Somente ela detinha este poder e pensando assim , o rasgara em pedacinhos minúsculos, não sem antes o rabiscar por inteiro com lágrimas de raiva e frustração. Após este momento de fúria, espalhara  suavemente seus pedaços ao vento, e em um último gesto de amor procurara pelos lugares mais bonitos dos arredores da casa para deixar seus restos, sentindo-se assim, um pouco menos culpada.  Tendo por testemunhas somente o alquebrado cão da casa e a mãe, ambos alheios a sua dor.
 

De princesas, gatos sorridentes e afins.

 Hoje li por aí que o Principe William e a Princesa Kate estão grávidos novamente.

Como assim , grávidos? O casamento deles foi ainda ontem…

daminha

 Este é um conto de princesas moderno baseado em fatos reais mas tão distante de nós mortais que pode ser considerado ficcional. Ou no mínimo surreal. É a história de uma garota determinada e objetiva chamada Catherine que nasceu em um país maravilhoso onde também  nasceram famosos importantes para a cultura do mundo e o bem estar da humanidade geral como Shakespeare, Sex Pistols e Harry Potter. Catherine nasceu do povo,  isto não significa em nada gostar de samba, comer feijoada em inauguração de laje e fazer a unha em manicure de bairro. A realidade de se morar em um país maravilhoso é que mesmo  nascendo do povo, podia ela estudar em uma escola de bacanas, esquiar na Suiça e vestir Dior para o chá das cinco horas. Foi em um destes chás que em um belo dia, Catherine visualizou um coelho branco de colete xadrez carregando um relógio de bolso, sob a fina neblina de uma tarde tipicamente londrina. Tirando o fato da visão  ser um coelho, Catherine não estranhou muito mais,  pois os habitantes de seu maravilhoso país costumavam usar o tom xadrez até mesmo nos guarda chuvas e tornaram-se conhecidos por sua pontualidade até para tomar chá.  E também, pensara ela,  o que era um coelho branco falante meio amalucado  perto do que viria a acontecer naquele final de tarde, onde uma lagarta azul, um gato com um sorriso que posteriormente inspiraria o Coringa , um chapeleiro aficionado por Dom Quixote de La Mancha e  uma lebre de março apesar da história em questão se passar em agosto serem os convidados principais de um fumegante e cada vez mais forte chá de folhas e flores, culpa disto da lagarta que ria muito e por ter  olhos miudinhos e puxados, herança  da avó materna coreana, não via que cada vez mais enchia o bule com aquele preparado perfumado enquanto contava histórias de quando servira no Paraguai, embalados todos ao som de Deep Purple. 

 Catherine, no entanto, se mantinha muito consciente e volta e meia memorizava o hino de seu país maravilhoso, sinal este, enquanto a letra encontrava-se afiada na ponta de sua língua,  que não estava se deixando hipnotizar por aquela infusão de sonho e  realidade em doses amplificadas. Depois de muitos bules de chá e biscoitinhos amanteigados de cravo e canela, Catherine se encheu daquele povo nonsense todo e gentilmente foi despedindo todo mundo prometendo a todos que um dia voltariam a se reunir no palácio de Buckingham , porque não, já que era para viajar, que viajassem em grande estilo real. O gato sempre simpático antes de bater em retirada, levando a tiracolo a lagarta desmaiada em um braço e a lebre ensandecida cantando “God save the Queen”  em outra, ainda parou para atender uma súplica da bela Catherine que desorientada lhe perguntava se ele como gato, conhecido por seu lado mais racional do que emotivo, saberia que caminho ela deveria tomar para alcançar seu sonho de tornar-se uma linda princesa. Ele pensou seriamente em contar-lhe a verdade sobre príncipes e sapos mas para não perder sua fama de auto suficiência arrogante por anos ostentada por toda classe felina  limitou-se a mandá-la andar. O que Catherine fez por muito tempo até topar com seu princípe encantado nos corredores da universidade que ambos frequentavam, ele como alteza real e ela como plebéia ( coisas somente possíveis em um país maravilhoso)  e sobre  as bênçãos da Rainha de Copas , darem o maior regabofes já feito no país maravilhoso para celebração de seu casamento também maravilhoso. 

 Como toda ladie que se preza, não esqueceu ela de convidar seus antigos parceiros de chá, mas de todos somente compareceu o chapeleiro enlouquecido por ter tido seu nome citado na Vogue francesa e se achando o último cookiezinho inglês do pacote mandou ver na criatividade da confecção dos chapéus para as damas da alta society. A lagarta azul retirara- se no Tibet onde vivia feliz há sete anos, a lebre de março casara-se com uma arara azul e passava suas férias no Rio e o gato de Cheshire encontrava-se em um dos seus raros momentos de mau humor , que sempre quando isto acontecia, distanciava- se de tudo e todos para refletir sobre sua existência e a superficialidade dos sentimentos humanos. Casara-se pois Catherine com toda pompa e toda honra esperadas a uma linda princesa e depois da cerimônia perfeita , com o aval da Rainha de Copas que feliz usando um conjuntinho em homenagem ao seu doce preferido, o quindim, elogiara a festa e não mandara decapitar ninguém pois tudo saíra aos conformes, pegara seu princípe encantado  que ostentava um sorriso abobado do qual não conseguia se livrar e desfilaram em carruagem aberta pelas ruas de seu país maravilhoso cujos habitantes  regozijavam-se com a felicidade de ambos e também por ganharem um feriadinho para emendar com o final de semana, afinal de contas a lua de mel devia ser para todos, acreditavam.

  Perto dali um sacristão foi visto dando piruetas acrobáticas comemorando o sucesso da cerimônia. O que muitos não sabem, é que a exótica criatura era nada mais, nada menos do que o  chapeleiro maluco , que eufórico com o sucesso de seus chapéus excêntricos, resolvera comemorar afanando uma roupa de padre para não chamar muito atenção e poder extravasar a tremenda bola dentro. Como tratava-se de um conto de fadas moderno, veio a bombar no You Tube.

 

Vidas quase secas

Reler Vidas Secas de Graciliano Ramos é como recordar profundas dores antigas. Bem sei o porquê. Chorei quando o li aos nove anos de idade. Choro agora enquanto acompanho uma vez mais a saga de Fabiano e sua família. Que autor consegue entrar na cabeça de cada personagem e ver a forma tão particular como cada um vê a vida, vida esta que se apresenta desgraçadamente igual para todos? Que autor consegue entrar na cabeça de um animal e sentir com ele todo o medo, aflição, confusão, esperança, dor e desespero frente a morte? Choro com Fabiano, com Sinhá Vitória, com o filho mais novo, com o filho mais velho. Choro com Baleia. Mas tal qual ela, ainda sonho com um mundo de preás. Em nossas agonias, Baleia e eu sonhamos com um mundo repleto de preás.