Meu querido Diário

 Houve um tempo em que tinha ela um diário. Enchia páginas e páginas por dias para depois rasgar tudo em pequenos pedaços, não sem antes rabiscar com caneta hidrocor todas as palavras até se tornarem ilegíveis. Afora isto ainda espalhava os diminutos papéis por todos cantos da chácara onde vivia. Naquele tempo ainda não existia estas campanhas de agora, preserve o meio ambiente, mantenha limpa a sua cidade entre tantas outras. Mesmo porque não vivia ela em uma cidade. Era mais um povoado, contando aí umas oitentas casas. Conhecia-se toda a gente moradora dele. E também seus pertences, suas roupas , seus hábitos. Só não era de conhecimento geral os costumes, cismas e paranóias. Sendo assim então ninguém desconfiava que possuía ela um diário. Não lembrava , entretanto, o que tão abominável era o que escrevia nele para eliminar tão metodicamente todo e qualquer vestígio dos momentos registrados. Deveria ser  paranóia mesmo, bem resolvida visto que hoje o que escreve qualquer pessoa no mundo tem acesso. Lembra somente de um único acontecimento. Era ela  platonicamente apaixonada pelo seu vizinho, isto é pelo filho do seu vizinho e preferiria a morte a alguém descobrir este seu segredo. Quisera ela contar aos quatro ventos da sua  louca e arrebatadora paixão, mas constatara desoladamente que não o poderia fazer correndo o risco de tomar uma sova daquelas de seu pai por tamanha leviandade precoce. Pensara então em contar para uma pessoa, uma única pessoinha apenas para dividir aquele pesado sentimento que lhe devastava os sentidos, mas por eliminação as pessoas com quem ela trocava uma idéia à época não eram as mais indicadas para a partilha de um segredo tão solene e profundo. Sua mãe levaria ao seu pai, isto certamente após recuperar-se do ataque de riso a qual fosse acometida. O padre a mandaria rezar três padres-nossos e cinco ave-marias, e sua professora, bem, ela era a irmã do protagonista daquele enredo amoroso. Pronto, falei. Sendo assim nada mais lhe restava senão contar tudo ao sempre seu melhor amigo de todos os tempos: um caderno velho sem espiral cuja primeira página era tomada por umas flores horrorosas desenhadas por ela  que nunca levara o menor jeito para as aulas de Educação Artística e onde , em uma tentativa de letra imitando os antigos pergaminhos, psicografara: Meu querido diário. Nele, descarregava o coração,  lavava a alma, tirava toneladas de pedras que lhe curvavam os ombros. Isto durante as madrugadas insones.  
 Uma manhã, levíssima, tomara seu café e rumara à escola feliz, feliz. O ruído do giz na lousa era trilha sonora para suas fantasias mirabolantes acerca do seu  romance com o tal rapazelho, a estas alturas, desmacarado. Carregava ainda um sorriso débil nos lábios quando uma cena fulminante que só poderia ser um sinal dos céus ou um aviso dos infernos para chegar assim tão subitamente furou o bloqueio de suas defesas mentais tão bem construídas em sua cabeça de nove anos. Via sua mãe irrompendo quarto adentro, levantando o colchão da cama e descobrindo seu segredo tão bem infiltrado sobre o estrado da cama. Enquanto apoderava-se do seu  mundo misterioso, sentia-o  resvalar para uma grande cratera onde era ela engolida junto a um mar de lama, vergonha e devassidão. Sem sequer tentar lutar contra a impulsividade com a qual mais tarde travara batalhas por toda sua vida, empurrara a cadeira que acabou caindo estrondosamente causando assim um alvoroço na turma toda e trotara estrada afora rumo a casa que ficava bem próxima da escola mas que subitamente parecera ficar a anos luz de distância. Irrompera porta adentro, completamente esbaforida, para encontrar sua mãe calmamente sentada à mesa da cozinha , concentrada na minuciosa tarefa de escolher o feijão para o almoço ,e, como sendo a coisa mais normal do mundo, nove horas da manhã ela estar em casa, erguera os olhos desinteressada: – “Ah, és tu? ” – Não pudera  deixar de pensar ela, um tanto aborrecida, enquanto atravessava um longo corredor até seus aposentos de como surgira a idéia que ela, sua mãe  iria ao seu quarto bisbilhotar sua vida, ou que sairia do seu mutismo habitual para rir às gargalhadas de suas tolices. Já no quarto suspirara aliviada junto ao seu amigo, ajudando-o a sair de seu esconderijo. Rira extasiada, vertera lágrimas oprimindo ele em seu peito, rodopiara  alegremente pelo quarto. Eram dois amantes felizes, cúmplices em seus segredos mais sórdidos. Deitaram-se  lado a lado em sua cama e assim um quarto de hora se passara sem que o mundo os apercebesse, embriagados que estavam  em seu deleite confidencial. Aos poucos porém, a realidade foi se fazendo notória e era preciso voltar ao mundo normal onde seria preciso desfazer aquele laço fraterno. Olhando para seu companheiro fiel procurara nele desculpas para sua própria fraqueza . Poderia dizer que sua complacência bovina a enfadou. Que seu silêncio infinito a sufocou. Ou simplesmente achara que era ela boa demais para dividir seus mais loucos segredos com ele. Poderia colocar todas suas culpas, medos, fracassos nele, pois saberia que ele jamais revidaria mesmo sabendo de seus segredos escabrosos pois era seu amigo e não faria nada para lhe magoar. Somente ela detinha este poder e pensando assim , o rasgara em pedacinhos minúsculos, não sem antes o rabiscar por inteiro com lágrimas de raiva e frustração. Após este momento de fúria, espalhara  suavemente seus pedaços ao vento, e em um último gesto de amor procurara pelos lugares mais bonitos dos arredores da casa para deixar seus restos, sentindo-se assim, um pouco menos culpada.  Tendo por testemunhas somente o alquebrado cão da casa e a mãe, ambos alheios a sua dor.
 
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