Maria Julia

Maria Julia és tu menina

guria ensimesmada

do vestido florido

chegava a tardinha onde andará esta rapariga

indagava frente a velha imagem de nosso senhor na cruz , de suas súplicas, já comprazido.

Olha, não te desgasta comadre,

era a vizinha da janela em frente

comiserada com tamanha pensão

menina moça é assim mesmo

há de se fazer relevação.

Mas a pobre senhorinha

só fazia redobrar seus cuidados

alisava o vestido da eucaristia

usado ainda aquela manhã

tão linda estava Maria Julia

entrando a passos cadenciados

recebendo a comunhão

da sacristia ela espiava

como agora da janela

esperava

em verdadeira aflição.

Se Maria Julia soubesse.

Se Maria Julia sonhasse.

Se Maria Julia caísse

de seu mundinho imaginário

veria uma mãe que sofria

uma mãe que não dormia

e que aos pouquinhos morria

de frente ao relicário.

Pode-se morrer por rezar?

Pode-se morrer por amar?

Perguntava ela ao santo

de feição inexpressiva

coração dilacerado

alma apreensiva.

Eis que ouve risinhos

do portão em frente

é Julinha que retorna

alheia ao seu sofrimento

Em sua displicência adolescente.

Vem em fitas

vem em flores

vem em cheiros

inconsciente do que causa

sejam risos

sejam dores.

Espinheiros.

Maria Julia és tu menina

guria ensimesmada

do vestido florido.

Maria Julia és tu menina

guria ensimesmada

do coração empedernido.

Não guardei as velhas orações que o padrezinho entoava ao altar

Falo padrezinho

Pois era assim ele tão pequeninho

e tão grandioso em seus sermões

Não guardei os ensinamentos da professorinha à sala de aula

Dizia ela que deveríamos acreditar em algo que não recordo bem

tão confuso tenho os sentimentos

Mas era bom

Tão bom

havia algo doce no ar

Como doce de maçãs  feito à  casa

Era o cheiro Ou somente as palavras, talvez

Tão bom que acho mesmo que Deus ficou por lá.

Setembro

12033179_1153449088018448_4981916180796845543_nQuando setembro chegar
Trará
Flores e cores
Mas também chuvas e desamores
Como um mês qualquer
O que é realmente especial
Sou eu, és tu
e nossa incrível capacidade de amar
E por que não?
Nossa vontade ilimitada
quase que sofreguidão
de fazer brigadeiro ao pé do fogão
e poesia na madrugada.

Casa das Marias

 

Em uma família com muitas Marias nasci Ana

Homenagem a avó que também Maria era

E entre Marias, Anas,  Mulheres

Em comum a todas elas, a espera.

Esperava Antônia o marido que partira

Esperava Graça. Era menina. Maria seria.

Esperava Luisa pelo amor que não viera.

Glória esperava pelo beijo apaixonado

Cecília tão somente um vivente pra casar

Mariana esperava pois o padre alertava

(Com o olho arregalado)

O mundo em breve vai acabar

E o filho não vingado Rosa esperava e esperava.

Tereza esperava ser professora

Dona Maria Tereza repetia baixinho

Enquanto ajudava a mãe na máquina de costura

E cosendo envelhecera

O sonho esmaecera

Da espera a loucura

Cresci com mulheres que esperavam

Fascinada em meio a  tanta Maria

Embora com o  temor a espreitar

De que também eu esperaria.

Dizem que quem espera sempre alcança

(uma autoajuda a esperança)

Apesar de  tudo  toda Maria sorria

Mesmo junto  a dor

Mesmo junto a aflição

Mesmo junto a agonia

Aprendi  que isto as fazem

verdadeiras

Marias

Guerreiras

Perdem batalhas

Seus filhos

Amores

Mas os sonhos

O brilho

As cores

Renascem a cada dia.

Mulheres de todos os nomes

Mulheres de todas as dores

Sempre sorriem

Anjos sem asas

Esperando dias melhores

Mulheres

Esperando

Sorrindo

Como as Marias de minha casa.

O sabor da melodia
A cor da chuva no verão
Explicaria a sinestesia
Desvendaria a relação
Entre um ato abnegado
Um olhar agradecido
O amor multiplicado
Em um sorriso devolvido.

(Conseguem ouvir?)

Somente isto reproduziria
A musicalidade da poesia
de almas em conexão.
Rafa

Foto: Rafael Babot Mercadante Zeymer- Gentilmente cedida pela sua mãe, Lorena Babot

Silêncio

Conheceram-se de uma maneira novelesca. Em uma esquina trombaram-se. Ele com uma pilha de livros que levava para doação. Ela com uma pilha de papéis que levava para autenticação. No mesmo prédio uma biblioteca e um cartório. E a esquina. O encontrão. Ele apanhando os papéis dela. Ela juntando seus livros. Desandou ela a falar. Sobre a pressa, sobre o engarrafamento que pegara no caminho, sobre o trabalho acumulado, sobre como era desajeitada
Ele limitava-se a sorrir.
Foi daí que ao entregar um dos livros ela viu a foto do autor na capa. Era ele. Um pouco mais jovem, era verdade. Mas ele.
Um escritor. Poderia existir algo mais charmoso? Queria saber dele. Porque estava doando seus livros? Como era escrever? Ela escrevia algumas coisas também. Besteirinhas. Um pequeno diário.Era apenas um delírio juvenil. A vida a empurrara para caminhos mais burocráticos. Documentos.Assinaturas. Protocolos. Fazia parte.
Ele respondia monossilabicamente.
Achava graça do seu jeito questionador e expressivo.
Já se amavam. Tudo muito rápido. Ela com suas muitas palavras. Ele com poucas. Faladas, serve a ressalva. Escritas, muitas.
Veio a paixão. Sucumbiram a rotina. O amor amenizou. O tédio ganhou força. Ao final, uma raiva quase surda.
A luta pela sobrevivência os separava em trincheiras distintas.
Ela afogava-se em uma piscina de papéis e contas a pagar.
Ele engasgava-se com as palavras não ditas. Mesmo as escritas, já não vinham mais com a facilidade de outrora. Não havia mais inspiração frente a vida real.
Ela de súbito, calara-se.
Ele não questionou.
Quando seus corpos também não mais se comunicavam ele ergueu um olhar mudo a ela, interrogativo.
O que acontecera?
Para onde haviam ido as risadas, os bons momentos, as noites de inverno com ele lendo uma de suas criações, ambos em frente a lareira, com ela enroscada no tapete da sala, aos seus pés, com ar de interesse, ambos apostando que desta vez, daria certo.
Para onde haviam ido seus sonhos?
Acabaram-se as palavras. Foi encontrá-las dias depois em um amarfanhado papel que embrulhara o pão do dia anterior cujos farelos ainda jaziam sobre a mesa disputando espaço com canecas contendo um resto de café frio no fundo e cinzas de um cigarro não terminado.
Era muito tarde.
Elas tinham ido para sempre.

Do Criador

Quando ando por teus caminhos
teus parques, tuas praças
Tuas avenidas
por estas pessoas multi coloridas
Que formam este mosaico curioso
faz-me bem constatar
Que aqui, por estas mesmas calçadas
estas escadarias, passeios
Alguém com os mesmos anseios
tuas vias esteve a cruzar.

Quando em meio a este torvelinho
de cores, sons e cheiros
Ainda assim sinto-me sozinho
faz-me bem pensar
Que por estas mesmas alamedas
estes becos, estas veredas
Dividindo nossas angústias
aqui, por estas mesmas ruas
Um dia também passou
um poeta passarinho.

mario