Silêncio

Conheceram-se de uma maneira novelesca. Em uma esquina trombaram-se. Ele com uma pilha de livros que levava para doação. Ela com uma pilha de papéis que levava para autenticação. No mesmo prédio uma biblioteca e um cartório. E a esquina. O encontrão. Ele apanhando os papéis dela. Ela juntando seus livros. Desandou ela a falar. Sobre a pressa, sobre o engarrafamento que pegara no caminho, sobre o trabalho acumulado, sobre como era desajeitada
Ele limitava-se a sorrir.
Foi daí que ao entregar um dos livros ela viu a foto do autor na capa. Era ele. Um pouco mais jovem, era verdade. Mas ele.
Um escritor. Poderia existir algo mais charmoso? Queria saber dele. Porque estava doando seus livros? Como era escrever? Ela escrevia algumas coisas também. Besteirinhas. Um pequeno diário.Era apenas um delírio juvenil. A vida a empurrara para caminhos mais burocráticos. Documentos.Assinaturas. Protocolos. Fazia parte.
Ele respondia monossilabicamente.
Achava graça do seu jeito questionador e expressivo.
Já se amavam. Tudo muito rápido. Ela com suas muitas palavras. Ele com poucas. Faladas, serve a ressalva. Escritas, muitas.
Veio a paixão. Sucumbiram a rotina. O amor amenizou. O tédio ganhou força. Ao final, uma raiva quase surda.
A luta pela sobrevivência os separava em trincheiras distintas.
Ela afogava-se em uma piscina de papéis e contas a pagar.
Ele engasgava-se com as palavras não ditas. Mesmo as escritas, já não vinham mais com a facilidade de outrora. Não havia mais inspiração frente a vida real.
Ela de súbito, calara-se.
Ele não questionou.
Quando seus corpos também não mais se comunicavam ele ergueu um olhar mudo a ela, interrogativo.
O que acontecera?
Para onde haviam ido as risadas, os bons momentos, as noites de inverno com ele lendo uma de suas criações, ambos em frente a lareira, com ela enroscada no tapete da sala, aos seus pés, com ar de interesse, ambos apostando que desta vez, daria certo.
Para onde haviam ido seus sonhos?
Acabaram-se as palavras. Foi encontrá-las dias depois em um amarfanhado papel que embrulhara o pão do dia anterior cujos farelos ainda jaziam sobre a mesa disputando espaço com canecas contendo um resto de café frio no fundo e cinzas de um cigarro não terminado.
Era muito tarde.
Elas tinham ido para sempre.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s