A minha rua volta e meia toca piano. Por muito tempo fui surpreendida pela doce música em momentos diversos quando somente fechava os olhos e suspirava baixinho em sinal de respeito e agradecimento.  Hoje senti  uma curiosidade tamanha  em saber de onde vinha esta melodia que tanto me apraz a alma, que apurei os ouvidos debruçando-me à  janela. Vinha de uma casa do outro lado da rua, um pouco mais abaixo é verdade, com um imenso jardim em frente, não impedindo isto, no entanto, do sopro de suas notas à vizinhança. Esta casa, aproveitando a descrição, resiste bravamente com outras poucas aos prédios tão individualistas que brotam por toda a rua. E lá dentro, mesmo que inconsciente, alguém nos presenteia  com momentos de ternura . Este tempo  empoleirada à sacada fazendo uma breve  incursão ao jardim vizinho  fez lembrar-me de uma outra casa do outro lado de uma outra rua.  Era uma casa amarela, pequenina, de madeira. Tinha um terreno grande, um portãozinho que ficava rangendo ao vento e se não me falha a memória, uma árvore alta na frente. Dela não saía nenhum som musical e nenhum de seus ocupantes veio a tornar-se um grande tenor ou astro do rock, não que eu saiba pelo menos, mas esta casa foi a parte boa de um tempo  que deixou saudades . Era um tempo em que todos eram amigos, todos se ajudavam e se aceitavam em suas estranhezas. Todos ficavam felizes pelos seus e os seus eram realmente todos, familiares, vizinhos, amigos.  Um tempo que ao ouvir o choro do sino todos compungidos reconfortavam-se em silêncio por um dos seus que tinha se ido e um tempo que todos regozijavam-se quando uma nova vida estava a chegar. Era um tempo de poucos e ainda assim de todos. O que me faz refletir sobre… o que aconteceu com o mundo?  Hoje somos muitos e sós. Não nos sorrimos, não nos tocamos, não nos sofremos, nem nos abraçamos com um ei cara estou feliz por você. Feito autômatos acordamos para nossos carros, nossas academias, escolas, nossas mesas, vigas, consultórios, nossas quatro paredes, sem olhar  verdadeiramente para quem está ao nosso lado.  Algo mudou em mim,eu sinto.  Talvez seja só saudade da casa amarela, talvez seja só a comunhão com meu vizinho pianista, talvez seja  só a inquietação por um mundo que acorda todos os dias e volta a dormir em seguida. Talvez eu esteja despertando enfim…

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Páscoa

Resguardados os ramos,
a macela colhida
a pedra removida
Ele não está aqui
entoa o sacristão
Incita-me a ressurreição
sou a ovelha que o pastor exorta
Tenho ganas de voltar a vida
ainda que,
meio alquebrada
meio judiada
meio morta.

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