E nós, que mal fizemos a Deus?

Em uma exposição de pré conceitos, o longa francês “Qu’est-ce qu’on a fait au Bon Dieu?” aborda de uma forma leve e bem humorada o tema da imigração e xenofobia subsequente. Do preconceito sagrado a qual todos compartilham, sejam oprimidos ou opressores.

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Não disfarço minha predileção ao cinema francês e “Que mal eu fiz a Deus?” vem a ser mais um motivo até mesmo quando foge ao tradicional combo que tanto esperamos: filme cabeça + arte e nos vem apresentado em um formato comédia leve e despretensiosa; ainda assim, nos surpreende com uma abordagem crítica e de sutileza ímpar, levando-nos novamente a combinação esperada.

Os Verneuil tem quatro filhas e três genros no mínimo diferentes. Ao menos para o perfil idealizado por pais tão conservadores. O que Claude e Marie não imaginam é que além do convívio com diferentes etnias dentro do ambiente familiar, todas as esperanças depositadas na filha mais nova para que enfim, o tão perfeito casamento com um marido francês e católico aconteça, tendem a ruir quando eles descobrem que o não convencional pode exigir muito mais do que simplesmente aceitação. Vindica tolerância e acima de tudo respeito.

Philippe de Chauveron conseguiu o inusitado: juntar o humor com a autoanálise a qual somos induzidos a fazer. A convivência com as mais diferentes nacionalidades pode ser um tema atual aos europeus, contudo nós, em nosso dia a dia também precisamos conviver com o que nos foge a limitada visão que temos do comum. Assim, os mesmos temas recorrentes no filme são nossos velhos conhecidos. O preconceito em suas mais diversas manifestações: religiosas, culturais, raciais, étnicas ou sociais. Alfineta com vontade nossas dificuldades de aceitarmos tudo aquilo que se distancia do que convencionamos padrão. Ainda que, recorra a personagens um tanto caricatos e faça um certo abuso de cenas clichês, as espetadas alcançam o objetivo.

Qu’est-ce qu’on a fait au Bon Dieu? França- 2014
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Publicado originalmente em Obvious.

http://obviousmag.org/bodega_bay/2015/e-nos-que-mal-fizemos-a-deus.html

Refugiados na dor

Existem dois sentimentos que colocam em pé de igualdade todos os seres independente de suas raças, cores, opções, condições ou religiões. O primeiro é a capacidade de sonhar. Todos sonham. Com a felicidade, com o saber, com tangerinas recém colhidas. O segundo é o medo. E o maior de todos, sem sombra de dúvida, é o medo de acordar.

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Quando me deparei com a imagem de Aylan, aquela mesma que rodou o mundo e tocou até os corações mais entorpecidos, automaticamente veio-me ao pensamento duas situações. A primeira, a minha própria quando há vinte anos aqui desembarcamos, meu marido e eu, com mochilas às costas e alguns poucos trocados no bolso. Sei que muitos pensarão que a comparação não é justa. Não vínhamos de um país em guerra, tampouco de uma região que traz a marca discriminatória tatuada na região frontal. Não vínhamos clandestinamente apinhados em navios nem fazíamos parte de minorias, exceção talvez aos parcos trocados que nos colocavam em uma condição pouco favorável. Vínhamos do Rio Grande do Sul para Santa Catarina, estados vizinhos, portanto relativamente perto. Poderíamos voltar se assim o quiséssemos? Talvez pudéssemos, mas vislumbrávamos uma centelha de esperança ao futuro e foi por isto que lançamo-nos à estrada e à sorte. Voltar não estava em nossos planos. Éramos jovens e sonhadores. Tínhamos medo, entretanto. Medo que não desse certo, medo de que não conseguíssemos trabalho, medo de não sermos aceitos.O segundo pensamento remeteu-me a “Vidas Secas”. Nenhum outro autor me fez até hoje sofrer tão miseravelmente quanto Graciliano Ramos. Sofri com Fabiano e sua família, tão áridos de vida, retirantes da seca, da miséria, da desgraça. Sofri com Baleia junto a sua aflição, esperança, dor, confusão frente à morte.

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Mas afinal de contas, o que um garotinho sírio, uma pobre contadora de histórias e os personagens de uma obra belíssima possuem em comum para serem reunidos em um mesmo texto? A resposta muito simples: uma estranha, uma triste combinação de medo e esperança. Aquilo que só sentem aqueles que sabem que só lhe restaram sonhos. Apesar de todo o medo que senti à época, de todas as dificuldades, ainda me foi permitido sonhar. Sinto por Aylan e sua família e tantas outras que perderam suas vidas, por terem sido acordados abruptamente. Gostaria de devolver-lhes seus sonhos. Gostaria que todo homem tivesse condições dignas de sustentar a si e sua família (e aqui Thomas More se junta a este grande elenco). Gostaria de dizer-lhes que o mundo ainda vai ser de todo mundo, tanto no direito de ir e vir quanto no direito de ficar. Que Sinhá Vitória, não, eles não tem como saber quem foi Sinhá Vitória, mas em sua simplicidade, ela disse que deve haver um lugar para todos no mundo de Deus.

Chorei, copiosamente. Por Aylan, seu irmão, sua mãe, seu pai. Por Sinhá Vitória, Fabiano, menino mais novo, menino mais velho. Chorei também por Baleia. Mas tal qual ela, ainda sonho com um mundo de preás. Em nossas agonias, Baleia e eu sonhamos com um mundo repleto de preás.

Publicado originalmente em Obvious.

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Nós, nós mesmos, e Johnny Cash

Sigamos os passos do bom e velho Cash…
…e também não percamos nós, nossa identidade.

Ainda que o mundo, este homem de preto cruel e inexorável, nos empurre à prostituição diária, e a mediocridade pareça nos engolir com seus dentes afiados, ainda assim, não a perca. Não nos percamos.

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Hoje, decorridos 12 anos (Nashville, 12 de setembro de 2003) da morte de Johnny Cash, ainda o temos tão constantemente por perto que a verdade é que, ele nunca parece ter partido. No melhor estilo “revival” de cantores pioneiros do Rockabilly, a voz marcante do homem de preto embala seriados, filmes e toca nas rádios mundo afora. Não serei eu, entretanto, mais uma a contar a longa trajetória artística deste mestre maior da música, para isto há leitura de sobra ou mesmo o filme Johnny e June (Walk the line- 2005) dirigido por James Mangold, que conta um pouco da sua carreira e história pessoal. Maravilhoso por sinal, tendo como representantes fiéis Joaquin Phoenix e Reese Whiterspoon.

Serei eu sim, mais uma a falar de amor e devoção à Cash. Muito mais do que adoração a sua voz inconfundível, suas canções, letras que falam ao coração, é o amor que tenho à sua humanidade. E não falo de benemerência ou ações altruístas, mesmo porque não tenho tanto conhecimento deste seu lado Irmã Dulce assim (embora tenha lido algo sobre seu engajamento político e principalmente a favor dos índios americanos) refiro-me aqui ao seu lado humano: aquele torto, confuso, errado, desajustado até. O lado das nossas fraquezas que nos assemelham e aproximam. O lado que todos temos e que no velho Cash, transbordava. Da culpa pela morte do irmão ao vício em anfetaminas e álcool. Do comportamento autodestrutivo a um primeiro casamento desestabilizado. Da sua constante melancolia a tentativas infrutíferas em dissimular suas fragilidades. Muitas destas dores e aflições nos são transmitidas através de sua voz rouca, triste, sepulcral como muitos a chamam. Também sua vulnerabilidade e força. Suas contradições.

Da infância pobre nos campos de algodão aos últimos dias devorados pela doença e velhice, o bom Cash nos deixou um legado intenso, não só na arte como na vida. Sobretudo, nos ensinou a sermos nós mesmos, sempre. Nos idos de 68 quando os produtores musicais à época o aconselharam a não gravar em um presídio, prevendo com isto o afastamento dos seus fãs religiosos, o destemido Cash foi lá e mandou ver cantando junto aos presidiários e falando-lhes diretamente como irmãos. Novamente nos anos 90 , quando seu estilo musical parecia ultrapassado, ele ressurgiu das cinzas e encantou então a atual geração, filhos dos filhos dos seus primeiros admiradores. Quando próximos tentavam fazê-lo acreditar que não seria bom o suficiente, ou situações cobravam-lhe posturas diferentes ele não se curvava. Pode ter caído, resvalado, sofrido, machucado. Mas nunca rendido. Graças a estas atitudes o mundo perdeu um vendedor de utilidades domésticas para ganhar um gênio.

Cash me incentiva a fazer o que amo sempre. Mesmo que digam que também não sou boa o bastante. O faço por mim. Por quem sou. A redenção que ele tanto buscava em suas canções, eu a procuro também em minhas palavras. Talvez, algum dia a encontraremos. Por ora, não nos percamos.

Publicado originalmente em Obvious.

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Os amores secretos do poeta Schiller

“Duas irmãs, uma paixão” do diretor alemão Dominik Graf, estreou no Brasil este ano e foi apresentado como concorrente a melhor filme estrangeiro para o Oscar 2015. A suposta história do triângulo amoroso entre um dos mais importantes nomes do romantismo alemão, o escritor Friedrich Schiller e as irmãs Charlotte e Caroline. Elegância e requinte recheiam esta obra poética. Uma daquelas produções feita para muitos, porém para poucos, se me compreendem.

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Se a simples ideia de um “ménage à trois” possui o poder de bagunçar com o imaginário de uma boa parcela dos homens (e não faço aqui nenhuma conotação machista) não crucifiquemos Friedrich Schiller por ter desejado fervorosamente fazer parte desta estatística e deste mundo de volúpia e prazeres intensos. Despimo-nos então de qualquer resquício de falsa moralidade que nos impregna o subconsciente. Relevemos tão somente o fato do nosso Friedrich em questão, ser um poeta, filósofo e estar entre os grandes nomes da literatura mundial. Ignoremos o fato de suas aventuras se passarem no final do século XVIII em uma Alemanha conservadora ao ponto de ebulição para novas correntes de pensamento e ainda, aterrorizada sob o manto da revolução que manchava de sangue toda Europa. E por fim, façamos vista grossa, ao fato dos vértices pertencentes a este triângulo serem irmãs. Belíssimas irmãs, por sinal. A doce Charlotte (Henriette Confurius) e a enérgica Caroline (Hannah Herzprung) vivem com o idealista Friedrich (Florian Stetter) um tórrido e doce caso de amor. Esqueçam, todavia, a qualquer teor de libertinagem que o filme do alemão Dominik Graf pareça induzir. Apresentado para a categoria de melhor filme estrangeiro na corrida do Oscar, o enredo é meloso, dramático e extenso (quase duas horas e meia de duração).

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Uma história de amor e tragédias. Copiando uma das tantas frases de efeito do filme: “Quando se ama é importante que existam obstáculos a serem superados”. Esqueçam também uma descrição mais detalhada da vida e obra do renomado escritor e poeta, percebe-se que o diretor quis tão somente focar no confuso e pretenso relacionamento do trio. Pretenso porque, o desejo de Schiller pelas irmãs foi verdadeiramente revelado em fragmentos de correspondências trocadas entre eles. E é a história deste desejo que foi transformada em uma grande e bela produção, de figurinos e locações perfeitos, belas fotografias e um enredo, ainda que enfadonho a alguns com seus floreios exagerados e suas tantas falas clichês, acaba por revelar-se em uma delicadeza ímpar. Com grandes tiradas poéticas, além de uma velada crítica a aristocracia européia traz também como pano de fundo a evolução da modernização da impressão e do acesso literário tão sonhado por Schiller: “Eu acho que a humanidade vai evoluir através do conhecimento e da visão da verdadeira beleza”.

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“Duas irmãs, uma paixão” não é apenas mais um romance épico ou uma história de um triângulo amoroso com apelos trágico dramáticos. Poderia ser uma das tantas histórias vividas hoje. Uma trama de dores, traições, incertezas, culpas, vulnerabilidades, fraquezas. Da força da paixão aos reveses do casamento. De laços fraternos que se rompem. Do estranho e solitário espaço que muitos sentem ocupar no mundo. Independente de poetas ou não. Amam e sofrem nesta trindade insana, Charlotte, Caroline e Friedrich. Mas é um sofrer em grande estilo:

“Agora ela ouve a música da tragédia. É a tragédia do amor. É a tragédia do casamento. Que parecem dizer a ela: você não foi feita para grandes sentimentos como estes pequena Charlotte Von Lengefeld”. Pelo visto nem nós.

Die Geliebten Schestern ( Alemanha, 2014).

Originalmente publicado na Obvious: http://obviousmag.org/bodega_bay/2015/estamos-prontos-para-dividir-o-amor.html