Os amores secretos do poeta Schiller

“Duas irmãs, uma paixão” do diretor alemão Dominik Graf, estreou no Brasil este ano e foi apresentado como concorrente a melhor filme estrangeiro para o Oscar 2015. A suposta história do triângulo amoroso entre um dos mais importantes nomes do romantismo alemão, o escritor Friedrich Schiller e as irmãs Charlotte e Caroline. Elegância e requinte recheiam esta obra poética. Uma daquelas produções feita para muitos, porém para poucos, se me compreendem.

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Se a simples ideia de um “ménage à trois” possui o poder de bagunçar com o imaginário de uma boa parcela dos homens (e não faço aqui nenhuma conotação machista) não crucifiquemos Friedrich Schiller por ter desejado fervorosamente fazer parte desta estatística e deste mundo de volúpia e prazeres intensos. Despimo-nos então de qualquer resquício de falsa moralidade que nos impregna o subconsciente. Relevemos tão somente o fato do nosso Friedrich em questão, ser um poeta, filósofo e estar entre os grandes nomes da literatura mundial. Ignoremos o fato de suas aventuras se passarem no final do século XVIII em uma Alemanha conservadora ao ponto de ebulição para novas correntes de pensamento e ainda, aterrorizada sob o manto da revolução que manchava de sangue toda Europa. E por fim, façamos vista grossa, ao fato dos vértices pertencentes a este triângulo serem irmãs. Belíssimas irmãs, por sinal. A doce Charlotte (Henriette Confurius) e a enérgica Caroline (Hannah Herzprung) vivem com o idealista Friedrich (Florian Stetter) um tórrido e doce caso de amor. Esqueçam, todavia, a qualquer teor de libertinagem que o filme do alemão Dominik Graf pareça induzir. Apresentado para a categoria de melhor filme estrangeiro na corrida do Oscar, o enredo é meloso, dramático e extenso (quase duas horas e meia de duração).

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Uma história de amor e tragédias. Copiando uma das tantas frases de efeito do filme: “Quando se ama é importante que existam obstáculos a serem superados”. Esqueçam também uma descrição mais detalhada da vida e obra do renomado escritor e poeta, percebe-se que o diretor quis tão somente focar no confuso e pretenso relacionamento do trio. Pretenso porque, o desejo de Schiller pelas irmãs foi verdadeiramente revelado em fragmentos de correspondências trocadas entre eles. E é a história deste desejo que foi transformada em uma grande e bela produção, de figurinos e locações perfeitos, belas fotografias e um enredo, ainda que enfadonho a alguns com seus floreios exagerados e suas tantas falas clichês, acaba por revelar-se em uma delicadeza ímpar. Com grandes tiradas poéticas, além de uma velada crítica a aristocracia européia traz também como pano de fundo a evolução da modernização da impressão e do acesso literário tão sonhado por Schiller: “Eu acho que a humanidade vai evoluir através do conhecimento e da visão da verdadeira beleza”.

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“Duas irmãs, uma paixão” não é apenas mais um romance épico ou uma história de um triângulo amoroso com apelos trágico dramáticos. Poderia ser uma das tantas histórias vividas hoje. Uma trama de dores, traições, incertezas, culpas, vulnerabilidades, fraquezas. Da força da paixão aos reveses do casamento. De laços fraternos que se rompem. Do estranho e solitário espaço que muitos sentem ocupar no mundo. Independente de poetas ou não. Amam e sofrem nesta trindade insana, Charlotte, Caroline e Friedrich. Mas é um sofrer em grande estilo:

“Agora ela ouve a música da tragédia. É a tragédia do amor. É a tragédia do casamento. Que parecem dizer a ela: você não foi feita para grandes sentimentos como estes pequena Charlotte Von Lengefeld”. Pelo visto nem nós.

Die Geliebten Schestern ( Alemanha, 2014).

Originalmente publicado na Obvious: http://obviousmag.org/bodega_bay/2015/estamos-prontos-para-dividir-o-amor.html

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