Nós, nós mesmos, e Johnny Cash

Sigamos os passos do bom e velho Cash…
…e também não percamos nós, nossa identidade.

Ainda que o mundo, este homem de preto cruel e inexorável, nos empurre à prostituição diária, e a mediocridade pareça nos engolir com seus dentes afiados, ainda assim, não a perca. Não nos percamos.

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Hoje, decorridos 12 anos (Nashville, 12 de setembro de 2003) da morte de Johnny Cash, ainda o temos tão constantemente por perto que a verdade é que, ele nunca parece ter partido. No melhor estilo “revival” de cantores pioneiros do Rockabilly, a voz marcante do homem de preto embala seriados, filmes e toca nas rádios mundo afora. Não serei eu, entretanto, mais uma a contar a longa trajetória artística deste mestre maior da música, para isto há leitura de sobra ou mesmo o filme Johnny e June (Walk the line- 2005) dirigido por James Mangold, que conta um pouco da sua carreira e história pessoal. Maravilhoso por sinal, tendo como representantes fiéis Joaquin Phoenix e Reese Whiterspoon.

Serei eu sim, mais uma a falar de amor e devoção à Cash. Muito mais do que adoração a sua voz inconfundível, suas canções, letras que falam ao coração, é o amor que tenho à sua humanidade. E não falo de benemerência ou ações altruístas, mesmo porque não tenho tanto conhecimento deste seu lado Irmã Dulce assim (embora tenha lido algo sobre seu engajamento político e principalmente a favor dos índios americanos) refiro-me aqui ao seu lado humano: aquele torto, confuso, errado, desajustado até. O lado das nossas fraquezas que nos assemelham e aproximam. O lado que todos temos e que no velho Cash, transbordava. Da culpa pela morte do irmão ao vício em anfetaminas e álcool. Do comportamento autodestrutivo a um primeiro casamento desestabilizado. Da sua constante melancolia a tentativas infrutíferas em dissimular suas fragilidades. Muitas destas dores e aflições nos são transmitidas através de sua voz rouca, triste, sepulcral como muitos a chamam. Também sua vulnerabilidade e força. Suas contradições.

Da infância pobre nos campos de algodão aos últimos dias devorados pela doença e velhice, o bom Cash nos deixou um legado intenso, não só na arte como na vida. Sobretudo, nos ensinou a sermos nós mesmos, sempre. Nos idos de 68 quando os produtores musicais à época o aconselharam a não gravar em um presídio, prevendo com isto o afastamento dos seus fãs religiosos, o destemido Cash foi lá e mandou ver cantando junto aos presidiários e falando-lhes diretamente como irmãos. Novamente nos anos 90 , quando seu estilo musical parecia ultrapassado, ele ressurgiu das cinzas e encantou então a atual geração, filhos dos filhos dos seus primeiros admiradores. Quando próximos tentavam fazê-lo acreditar que não seria bom o suficiente, ou situações cobravam-lhe posturas diferentes ele não se curvava. Pode ter caído, resvalado, sofrido, machucado. Mas nunca rendido. Graças a estas atitudes o mundo perdeu um vendedor de utilidades domésticas para ganhar um gênio.

Cash me incentiva a fazer o que amo sempre. Mesmo que digam que também não sou boa o bastante. O faço por mim. Por quem sou. A redenção que ele tanto buscava em suas canções, eu a procuro também em minhas palavras. Talvez, algum dia a encontraremos. Por ora, não nos percamos.

Publicado originalmente em Obvious.

http://obviousmag.org/bodega_bay/2015/nos-nos-mesmos-e-johnny-cash.html

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