Refugiados na dor

Existem dois sentimentos que colocam em pé de igualdade todos os seres independente de suas raças, cores, opções, condições ou religiões. O primeiro é a capacidade de sonhar. Todos sonham. Com a felicidade, com o saber, com tangerinas recém colhidas. O segundo é o medo. E o maior de todos, sem sombra de dúvida, é o medo de acordar.

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Quando me deparei com a imagem de Aylan, aquela mesma que rodou o mundo e tocou até os corações mais entorpecidos, automaticamente veio-me ao pensamento duas situações. A primeira, a minha própria quando há vinte anos aqui desembarcamos, meu marido e eu, com mochilas às costas e alguns poucos trocados no bolso. Sei que muitos pensarão que a comparação não é justa. Não vínhamos de um país em guerra, tampouco de uma região que traz a marca discriminatória tatuada na região frontal. Não vínhamos clandestinamente apinhados em navios nem fazíamos parte de minorias, exceção talvez aos parcos trocados que nos colocavam em uma condição pouco favorável. Vínhamos do Rio Grande do Sul para Santa Catarina, estados vizinhos, portanto relativamente perto. Poderíamos voltar se assim o quiséssemos? Talvez pudéssemos, mas vislumbrávamos uma centelha de esperança ao futuro e foi por isto que lançamo-nos à estrada e à sorte. Voltar não estava em nossos planos. Éramos jovens e sonhadores. Tínhamos medo, entretanto. Medo que não desse certo, medo de que não conseguíssemos trabalho, medo de não sermos aceitos.O segundo pensamento remeteu-me a “Vidas Secas”. Nenhum outro autor me fez até hoje sofrer tão miseravelmente quanto Graciliano Ramos. Sofri com Fabiano e sua família, tão áridos de vida, retirantes da seca, da miséria, da desgraça. Sofri com Baleia junto a sua aflição, esperança, dor, confusão frente à morte.

vidas secas

Mas afinal de contas, o que um garotinho sírio, uma pobre contadora de histórias e os personagens de uma obra belíssima possuem em comum para serem reunidos em um mesmo texto? A resposta muito simples: uma estranha, uma triste combinação de medo e esperança. Aquilo que só sentem aqueles que sabem que só lhe restaram sonhos. Apesar de todo o medo que senti à época, de todas as dificuldades, ainda me foi permitido sonhar. Sinto por Aylan e sua família e tantas outras que perderam suas vidas, por terem sido acordados abruptamente. Gostaria de devolver-lhes seus sonhos. Gostaria que todo homem tivesse condições dignas de sustentar a si e sua família (e aqui Thomas More se junta a este grande elenco). Gostaria de dizer-lhes que o mundo ainda vai ser de todo mundo, tanto no direito de ir e vir quanto no direito de ficar. Que Sinhá Vitória, não, eles não tem como saber quem foi Sinhá Vitória, mas em sua simplicidade, ela disse que deve haver um lugar para todos no mundo de Deus.

Chorei, copiosamente. Por Aylan, seu irmão, sua mãe, seu pai. Por Sinhá Vitória, Fabiano, menino mais novo, menino mais velho. Chorei também por Baleia. Mas tal qual ela, ainda sonho com um mundo de preás. Em nossas agonias, Baleia e eu sonhamos com um mundo repleto de preás.

Publicado originalmente em Obvious.

http://obviousmag.org/bodega_bay/2015/refugiados-na-dor.html

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