Pai

Procurei entre os meus antigos pertences uma foto de meu pai e não encontrei. Uma minha com ele então? Nem pensar. Sou do tempo em que fotografia era algo raro. Venho de um lugar em que elas não tinham muita importância. Como explicar isto para uma geração que registra tudo, simultaneamente aos acontecimentos? Nem tentar. Talvez até ensaie mas…só um pouquinho: havia os retratistas profissionais era verdade, que volta e meia, porta a porta, ofereciam seus serviços. Não espero por suspiros de pena dizendo-lhes que era um luxo ao qual não nos permitíamos mas, era um luxo sim, que dispensávamos. Ademais, não existia esta felicidade escandalosa de hoje em dia e nem a vontade de esfregá-la na “face” dos amigos e vizinhos. Éramos felizes a nossa maneira, felizes em preto e branco, felizes sem edição. Sem memórias vivas ficaram então, apenas as reminiscências dos bons momentos. Para não correr o risco de ser desmascarada por uma parentela expectante, arrisco-me a dizer que restaram algumas poucas (bem poucas) amareladas fotos em família onde a solenidade se mostra tão insistentemente presente tal a seriedade com que fôramos captados. Este breve relato da “daguerreotipia” familiar serve como introdução tão somente para amenizar uma confissão de culpa: tal qual uma fotografia envelhecida as vezes a imagem de meu pai também me escapa. Confundo-a com de John Wayne nos poeirentos faroestes que assistíamos no pequeno televisor da sala, luxo este que ele, como bom provedor, fazia questão. Lembro dos olhos muito azuis me admirando enquanto eu escrevia. As vezes eles sombreavam como se ultrapassados por uma nuvem. Acho que viajavam no futuro e tristemente, ele se perdia nele, não se encontrando. Talvez seja o mesmo sentimento que me acomete quando o perco as vezes, em meu pensamento. As vezes entristeço, como hoje. Não sei se me tornei alguém que lhe trouxesse um grande orgulho atualmente, mas de alguma forma gostaria que soubesses pai que continuo escrevendo. “Sua garotinha pai, ainda escreve”, alguém lhe assopra isto? E faz-me falta, muitas vezes, seu olhar aprovador. Não aquele eternizado em uma fotografia do passado. O olhar de amor que ficou perpetuado em mim.12495052_988338824553166_1229446573299676314_n