As três irmãs

Um vento insistente hoje bateu à vidraça me despertando. Fui até a sacada e olhei a rua vazia àquela hora da manhã e voltei há trinta, trinta e cinco anos atrás, já não lembro bem ou talvez não o queira mesmo fazê-lo. Depois de um certo tempo, o cronômetro perde sua importância pois torna-se objeto de tortura a lembrar-nos constantemente de sua real função. Era uma estrada empoeirada e cheia de pedregulhos como eram as estradas àquele tempo. Não eram ruas pois não tinham nem um nome imponente de algum general que por lá tenha se aventurado e ninguém tampouco lembrou em dar-lhes um nome simpático como “ Rua das Flores” ou “Rua da Alegria”. Eram sim, as casas. A casa da dona Maria, a casa do tio João, a casa da dona Emerência. Assim, da casa do Canuto eu olhava aflita para a extensão da longa estrada onde uma curva encobria o final dela toldando-me a visão com o verde muito intenso da mata a frente. Nunca sabíamos quem a estrada nos traria, não havia telefone, carteiro, ou qualquer outra forma de anunciação. Somente o coração batendo mais forte, o vento que soprava as árvores, a poeira levantando, participando de alguma forma quem estava por vir.
– “Tenho pensado tanto na Rosinha “- suspirava a mãe, saudosa- “ Não demora ela aparece por aqui”.
Bastava para o coração espocar, o sorriso abrir, a ansiedade fincar. A mãe nunca se enganava. Tia Rosa estava por chegar. E com que felicidade ela vinha e nós a recebíamos, e ao primo e as primas. O tio nem sempre lhes fazia companhia nestas andanças, mas tia Rosa e as crianças eram certeiras. Talvez não nos déssemos conta de toda a dificuldade da viagem, das horas de caminhada ao sol, das paradas às chuvas, de alguma ou outra carona. Tia Rosa sempre chegava. Choravam abraçadas ela e a mãe pelo tempo distante, choravam por saudade da mãe delas próprias, enquanto eu e as primas riamos das duas nos contagiando com aquele contentamento pesaroso todo. No dia seguinte era dia de visitar a Ana, tia que morava morro acima, um pouco mais distante. Tia Ana que sempre nos recebia com a mesa a postos, farta em doces e guloseimas que ela mesma cozia ao forno de barro. Que felicidade a das três irmãs, que mulheres lindas, de uma bondade e candura sem igual, como se amavam, se respeitavam, se ajudavam em uma união que já não existe mais. Maria Júlia, a mais séria. Temente a Deus. Achava que tudo era pecado, principalmente o não amar ao seu próximo. Coração gigante, cabia o mundo dentro dele. Tia Ana, a mais engraçada. Conversava muito na mesma medida em que cozia. Sua felicidade era receber os seus à sua mesa, sempre contando casos e causos sem parar. Cada pão- de- ló, cada suspiro de claras era sua forma de transmitir a ternura que lhe era tão inerente, ao seu convidado, sempre especial em sua concepção. Tia Rosa, a mais tímida. Lembro do seu sorriso meio envergonhado, da sua resignação frente os reveses da vida e sua determinação de sempre seguir em frente. Um anjo de luz e afetuosidade. Cada irmã com suas particularidades e semelhanças na forma simples e amorosa de entendimento do mundo.
Maria Júlia há muito se foi deixando sua lembrança no toque do sino convidando à missa dominical. Ana partiu há alguns poucos anos nos legando sorrisos quando ao sabor de quitutes gostosos. E hoje o vento suspirando, a poeira levantando, o coração batendo pesadamente…tum…tum…tum … a estrada vazia… tia Rosa não mais virá. Contudo segue em outra estrada, florida e suave, a qual a conduzirá para junto de suas irmãs. Desejo que vá feliz, com aquele sorriso acanhado que sempre teve, que se ruborize com as risadas e disparates da Ana e preste muita atenção às pregações de Julia. Sempre, sempre sorrindo como era de sua natureza afável. Que abracem-se e regozijem-se muito. E que permaneçam sempre juntas pois para amor tão grande assim não existem estradas tortuosas demais. ♥️

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