…Depois de quase 40 horas sem energia elétrica, volto finalmente, à civilização e a minha sanidade mental. Que horrível ficar sem luz e consequentemente com todas estas coisas imprescindíveis a um ser humano: internet, telefone, tv a cabo, cerveja gelada e banho. Quente, complemento. Claro, se vocês não estivessem tão ocupados procurando pelas panelas já aposentadas para bater no dia de ontem ou compartilhando fotos da papada do Trump teriam visto meus sinais de fumaça. Isto é, caso ainda cultivassem o hábito de olhar aos céus para consultar o tempo em vez de entrar na previsão do tempo. Falando nela, a previsão de sábado na madrugada foi de um ciclone extra tropical em Floripa. Isto mesmo, o “quirudu” não foi previsto e mesmo depois de ter causado um belo de um estrago, pouco noticiado. As teorias de conspiração no entanto já ganharam o exterior. Uma amiga dos “States” passa uma mensagem perguntando se é verdade o que está no site da Nasa ( da Nasa! ) até uns minutos atrás eu não sabia nem como estava a Costeira. Brincadeiras a parte, agora dá para relaxar um pouquinho pois foi muito, muito tenso. Eu nem sabia que era tão religiosa. Jesus, Maria, José e todos os santos do candomblé, há muitos anos eu não sentia tanto medo de vento. Mais precisamente desde quando era bem pequena e nos vimos no meio da noite sem o telhado da casa. A família seminua, motivo este que durmo sempre com roupas ou no máximo que todas elas estejam em meu campo de visão, correu em pânico para a casa mais próxima, a da dona Maria. E eu só pensava na hora que agora nem casa da Dona Maria tem mais, aliás eu não sei nem o nome da minha vizinha de andar! Depois de muita tremedeira, minha e das vidraças, o ventinho ( bem íntima) acalmou-se. O dia seguinte foi aquele tipo cenário de “Twister”, “Tornado” ( este não assisti, joguei na Netflix apareceu como filmes relacionados), enfim.. estes filmes apocalípticos. Muitas árvores, muitas telhas, muito vidro pelo chão. Chuva, mais vento, frio em pleno dezembro. Bem bom para ficar em casa vendo um filminho. Se tivesse luz, claro. Sem ânimo para abrirmos o portão manualmente, optamos por ficar em estado de sítio, em casa. Coloquei a leitura em dia. Li tudo o que podia, o que estava pendente há décadas, até um trecho da bíblia para começar a pagar a promessa. A tardinha, ansiosos por notícias, lembramos que podíamos tentar o rádio do carro, já que o de pilha fora descartado na última mudança. Depois de trocar de estação umas vinte vezes, o máximo que soubemos foi uma receita de moqueca ensopada, a letra da nova música da Anita e como ensinar nossos filhos a participar mais ativamente das tarefas de casa. E nós nem temos filhos! Entediada, deixei o marido brigando com o carinha do rádio e fui dar uma voltinha na rua, aproveitando a trégua da chuva. Rua deserta, mal de quem mora em uma habitada por veranistas, já estava conformada com a vida inóspita que se apresentava a minha volta quando ouvi aquele grito eufórico de felicidade, ululante : “VIVAAAA”! Pessoas das mais diferentes formas e cores apareciam às sacadas, a vizinhança que até então eu pouco conhecia, sorria, cantava, abraçavam-se comovidos. Fui tomada por um sentimento profundo, de confraternização intensa. Gente, foi lindo. Trotei de volta para casa com o coração na mão. Pena que durou menos de um minuto. Junto com o alarme falso veio a vontade de pegar aquela gente toda e torcer o pescoço uma a uma. Derrotados, subimos as escadas e entramos no cativeiro a procura de velas. A noite iria ser longa.
P.s: a luz voltou há pouquinho, junto com a vontade de escrever, de rir, de falar bobagem depois de horas de tensão. Estamos todos bem, sem sorvete, mas bem.

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