De vaquinhas, caramelos e afins…

Minha vizinha francesa que passa apenas alguns meses ao ano por aqui bateu-me à porta dias destes portando uma sacola nas mãos. O marido, carioca mas europeu por usucapião, adiantou-se a ela: “Marguerite” (claro que o nome dela não é este, o substituo aqui por uma questão de privacidade e respeito contíguos e também por um lampejo providencial em Marguerite Duras). O nome suplente no entanto, traz a sonoridade parecida e o “r” arrastadinho, obrigando o interlocutor a formar um biquinho com os lábios, murmurando: MarguE-rri-te. Onde eu estava mesmo? Ah, no biquinho do francês. Carioca, anhhh marido: ” gostaria de lhe dar um presente”. Eu já fascinada olhando para a sacolinha que a francesa balançava freneticamente a minha frente. Seja lá o que tivesse dentro, meus olhinhos tupiniquins já se deliciavam com aquela sacolinha em preto e branco com dizeres lindamente escritos em tons dourados ” Paris”, não-conseguia-ler-o-resto-tanto-a-francesa-balançava-a-sacola. Quebrando o hipnotismo do momento veio aí a parte mais amável: desandou Marguerite a falar muito rapidamente, em frases curtas, sempre olhando em socorro ao marido, que prontamente reproduzia naquele português euro-carioquês, forçando-me a prestar atenção redobrada para não perder nada. Era uma historinha. Ah, pausa na narração para dizer-lhes que presente nenhum neste mundo me conquista mais do que uma historinha. Regalem-me os presentes mais caros do universo, nenhum terá valor maior que uma historinha bem contada. Elas me enchem os olhos e o coração. “ Existe uma região na França, onde outrora havia o mar”, Marguerite cantarolava aos meus ouvidos como quem soletra poesia e o marido traduzia. Confesso que graças as minhas matinês francesas tendo Omar Sy como professor e as dezenas de vezes em que assisti a doce Audrey Tautou, elegendo “les temps sont durs pour les rêveurs” como um mantra para minha própria vida, eu já estava quase dispensando a versão do marido para ficar somente com Marguerite que fazia biquinhos adoravelmente enquanto continuava naquela elegância típica das francesas: “ atualmente, vacas pastam nesta região e por conta do mar que aí existia, produzem leite com sabor salgado”, resumo aqui para não me estender mais, vejam a prolixidade da pessoa que só queria contar um breve acontecimento. Findando o colóquio, teatralmente apresentado pela dupla, Marguerite me estendeu a sacola que eu jamais intencionara devolver ( também adoro sacolinhas) e completou: “ Les caramels , os caramelos, as balinhas, tem sabor levemente amargo” – enquanto eu descobria um pacote de caramelos de leite adornados por uma linda fita azul.
Achei de uma gentileza tamanha que mesmo agora nesta tarde fria do sul acompanhada de meus livros solitários e dos caramelos das vaquinhas parisienses quase me sinto na obrigação de partilhar este carinho todo. Em forma de historinha porque amabilidades devem ser retribuídas da mesma forma, e ainda que meus vizinhos franceses não a leiam , aprendi com eles que é sempre bom espalhar delicadezas por aí.

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