A beleza do mundo
está em sua leitura
podemos ver pássaros sobre fios
o céu encoberto como pano de fundo
ainda assim é lindo
mas experimente olhar demoradamente
Vês agora a pauta, as notas musicais
consegues sentir a melodia?
Bem vindo
Isto é poesia
aprender a ler a partitura.
partitura

Anúncios

Canção de Nalu

Veio a onda cristalina/ quebrou na praia

Virou menina/ Pisou areia

a cantarolar/ Vento sussurou:

… (é Nalu que vem) …

… Naluquevem …anjo que anda

Nalu, a onda/ Nalu e o mar.

A praia veio beijar/ rolou na areia

Voltou pro mar/ Vento sussurrou:

… (é Nalu que vai) …

… Naluquevai …anjo flutua

Nalu, estrela/ Nalu e a lua

Do ar veio cantiga/ Virou passarinho

A cantarolar

… (é Nalu que voa) …

… naluquevoa … céu em ciranda

Nalu entoa/ Canção de ninar.

… (é Nalu que vem) …

… Naluquevem …anjo que anda

Nalu, a onda/ Nalu e o mar.

nalu

Meus vizinhos franceses -Parte II

Para aqueles que acompanharam a caramelada apresentação de meus vizinhos ( àqueles que não tiveram o prazer, apresento-lhes aqui ):

De vaquinhas, caramelos e afins…

Marguerite e o marido. Ocorre-me agora que não lhes falei, ainda que ficcionalmente, seu nome. Vamos lá, o nome do marido de Marguerite é o mesmo de um dos mais consagrados escritores de nosso país, aclamado como um dos melhores romancistas brasileiros, tendo nos deixado um legado grandioso na literatura, principalmente no referente a história do Rio Grande do Sul. Com esta comparação a um grande literato, acredito piamente que meu vizinho carioca-francês não irá se importar em absoluto se eu o chamar aqui de…Machado. Pensando bem, melhor referir-me a ele como Oswald. Sei lá, Oswald além de sonoramente não parecer tão íntimo quanto Machado ainda traz aquela ilusão de que estamos falando de alguém de fora do país. Não lhes darei tempo para regozijarem-se com meu complexo de vira-latas, não é isto. Acontece que o nome é pertinente. Ademais, o verdadeiro Oswald também passou uma temporada em Paris. Pronto. Marguerite e Oswald são meus vizinhos franceses que volta e meia rendem uma boa historinha. Esta é mais uma delas:
Fiquei eu dia destes sem carro. Como temos, meus vizinhos e eu, cronologia matutina semelhantes, sei instantaneamente o momento em que a fechadura de sua porta vai rolar, ouvindo assim, o som de seus passos ao corredor, ou seja, minutos que antecedem aos meus próprios. Desta forma, pontualmente ouvi o estalido da porta e corri para fora com a intenção de pedir uma carona. Péssima ideia. Primeiramente, vi apenas um braço estender uma pequena mala para fora. Fiquei ali, no corredor, frente a frente com a mala rezando para que Oswald fosse o primeiro a aparecer, conjecturando ainda, se o sinal de pedir carona com o dedo, seria algo universal, assim poderia me entender, caso a minha frente a mala fosse substituída por Marguerite. A porta destravou outra vez e, suspirei aliviada, era Oswald,  atenção voltada a um livro que trazia a mão. O pobre quase desfaleceu quando me viu, tamanho o susto. Passei as mãos pelos cabelos, desajeitadamente, tentando lhe passar ainda que tardiamente, uma impressão menos assustadora de meu despertar desastroso, e vomitei-lhe aflita, a necessidade da carona, a ausência do carro, a ida para a aula mais tarde, o médico, já nem sei mais o que falei. Meus vizinhos sempre me deixam nervosa, fenômeno este talvez explicado pela pseudo dificuldade na língua (ele fala português) ou pelo complexo dantes citado. Que eu não tenho. Descemos todos. Uma vez à garagem, repentinamente dei meia volta, saí em disparada trotando, aos berros: “MEU CASACO”, deixando para trás uns aturdidos franceses.  Subi esbaforida, meu casaquinho estava lindamente estendido na poltrona da sala e não tivesse eu tão ocupada em matar meu vizinho do coração momentos antes, ele não teria sido deixado para trás. Desci saltitante e pulei para o banco de trás do carro, feliz, louca para ouvir Marguerite falar com seu sotaque que sempre me remete a Edith Piaf cantando bravamente “ La vie en Rose”. Em vez disto, ela dirigiu-me um olhar gentil ainda que desconfiado, afinal um ser tão acometido de gestos impulsivos e espontâneos logo pela manhã cedo não é algo tão agradável assim de ser digerido, mesmo para os meus sorridentes e simpáticos vizinhos, e ligou o GPS do carro. A decepção inicial a qual fui acometida, deu lugar a alegria quando vi que o navegador era um substituto equivalente. Ulá-lá-lá! Uma voz doce e sensual passou a nos guiar pelas ruas do bairro. Em francês! Já não  importavam as pedrinhas e buracos do caminho exaustivamente percorridos por mim todos os dias, portanto, totalmente identificáveis. A cada virada eu antecedia aquela voz ronronando suavemente: “Tourne à gauche”, “Tourne à droite”, e via a minha rua como se fosse a primeira vez. Não, não estava mais na minha praia, na minha cidade, em meu solo. Estava em Paris. E enciumava-me dos franceses, detentores eles da romantizada Champs-Élysées,  Houellebecq e Zidane. Bem, este último parece que é árabe. De qualquer forma, deles também.  Pela janela do carro, olhos semi cerrados, cantarolava feliz. Extasiada repetia juntamente com aquela voz sexy, capaz de causar arrepios na própria Vênus de Milo: Retourner (voltar), Devant ( em frente), Près (de) próximo).

Juste devant moi ( a minha frente), Marguerite e Oswald entreolhavam -se assustados. Muito assustados. Não os culpo. As vezes, meus arroubos assustam a mim mesma.

“ ‘Enfer c’est d’être moi”*

*´É um inferno ser eu.

Agradeço a Ana paula Ana Paula Sezerino, minha francesa favorita e tradutora de plantão.🧡

De vaquinhas, caramelos e afins…

Minha vizinha francesa que passa apenas alguns meses ao ano por aqui bateu-me à porta dias destes portando uma sacola nas mãos. O marido, carioca mas europeu por usucapião, adiantou-se a ela: “Marguerite” (claro que o nome dela não é este, o substituo aqui por uma questão de privacidade e respeito contíguos e também por um lampejo providencial em Marguerite Duras). O nome suplente no entanto, traz a sonoridade parecida e o “r” arrastadinho, obrigando o interlocutor a formar um biquinho com os lábios, murmurando: MarguE-rri-te. Onde eu estava mesmo? Ah, no biquinho do francês. Carioca, anhhh marido: ” gostaria de lhe dar um presente”. Eu já fascinada olhando para a sacolinha que a francesa balançava freneticamente a minha frente. Seja lá o que tivesse dentro, meus olhinhos tupiniquins já se deliciavam com aquela sacolinha em preto e branco com dizeres lindamente escritos em tons dourados ” Paris”, não-conseguia-ler-o-resto-tanto-a-francesa-balançava-a-sacola. Quebrando o hipnotismo do momento veio aí a parte mais amável: desandou Marguerite a falar muito rapidamente, em frases curtas, sempre olhando em socorro ao marido, que prontamente reproduzia naquele português euro-carioquês, forçando-me a prestar atenção redobrada para não perder nada. Era uma historinha. Ah, pausa na narração para dizer-lhes que presente nenhum neste mundo me conquista mais do que uma historinha. Regalem-me os presentes mais caros do universo, nenhum terá valor maior que uma historinha bem contada. Elas me enchem os olhos e o coração. “ Existe uma região na França, onde outrora havia o mar”, Marguerite cantarolava aos meus ouvidos como quem soletra poesia e o marido traduzia. Confesso que graças as minhas matinês francesas tendo Omar Sy como professor e as dezenas de vezes em que assisti a doce Audrey Tautou, elegendo “les temps sont durs pour les rêveurs” como um mantra para minha própria vida, eu já estava quase dispensando a versão do marido para ficar somente com Marguerite que fazia biquinhos adoravelmente enquanto continuava naquela elegância típica das francesas: “ atualmente, vacas pastam nesta região e por conta do mar que aí existia, produzem leite com sabor salgado”, resumo aqui para não me estender mais, vejam a prolixidade da pessoa que só queria contar um breve acontecimento. Findando o colóquio, teatralmente apresentado pela dupla, Marguerite me estendeu a sacola que eu jamais intencionara devolver ( também adoro sacolinhas) e completou: “ Les caramels , os caramelos, as balinhas, tem sabor levemente amargo” – enquanto eu descobria um pacote de caramelos de leite adornados por uma linda fita azul.
Achei de uma gentileza tamanha que mesmo agora nesta tarde fria do sul acompanhada de meus livros solitários e dos caramelos das vaquinhas parisienses quase me sinto na obrigação de partilhar este carinho todo. Em forma de historinha porque amabilidades devem ser retribuídas da mesma forma, e ainda que meus vizinhos franceses não a leiam , aprendi com eles que é sempre bom espalhar delicadezas por aí.

Da síndrome…

11539768_1111067392256618_8597765665638890260_n (2)

A mão envelhecida
troca a água do bebedouro
Com que cuidado limpa o poleiro
quanta dedicação a ele conferida
Sua cabecinha emplumada
não concebe o cativeiro
espia, admira-se, aquiesce
e com seu lamento, agradece
o pequenino refém de Estocolmo.
Sonha em voar sem destino
enquanto aguarda a arrumação
quase pôde sentir o vento
ao dar uma cabriola
Afasta-se a mão
o pequeno desperta
entre as varetas vê o mundo sozinho
ignora suas asas
e mesmo a portinhola
há muito aberta.

Leviatã

Havia na terra de Uz um homem que andava só
Arrastava-se a beira do caminho
Descalço, desnudo, faminto
Ao vento, sereno, relento
Sem eira, na beira, no pó 
Compreendo seu desatino
Pois também ando sozinho
Me esgueirando, escondendo, escoando
Murchando, mirrando, morrendo
Atravessando meus dias de Jó.

Leviatã- AnnaClaudia- Dez2016

15781566_1512111828818837_9150398708264182123_n