Ah…que me perdoem este pessoal da engenharia
mas somente um arquiteto para conceber
do pleno, a beleza solitária
do sacro, o mundano
da catenária, a poesia.

AnnaClaudia- set-2016

“Exposição Gaudí, Barcelona 1900- Museu de Arte de Santa Catarinawp_20160918_015–  Florianópolis- SC”.

As três irmãs

Um vento insistente hoje bateu à vidraça me despertando. Fui até a sacada e olhei a rua vazia àquela hora da manhã e voltei há trinta, trinta e cinco anos atrás, já não lembro bem ou talvez não o queira mesmo fazê-lo. Depois de um certo tempo, o cronômetro perde sua importância pois torna-se objeto de tortura a lembrar-nos constantemente de sua real função. Era uma estrada empoeirada e cheia de pedregulhos como eram as estradas àquele tempo. Não eram ruas pois não tinham nem um nome imponente de algum general que por lá tenha se aventurado e ninguém tampouco lembrou em dar-lhes um nome simpático como “ Rua das Flores” ou “Rua da Alegria”. Eram sim, as casas. A casa da dona Maria, a casa do tio João, a casa da dona Emerência. Assim, da casa do Canuto eu olhava aflita para a extensão da longa estrada onde uma curva encobria o final dela toldando-me a visão com o verde muito intenso da mata a frente. Nunca sabíamos quem a estrada nos traria, não havia telefone, carteiro, ou qualquer outra forma de anunciação. Somente o coração batendo mais forte, o vento que soprava as árvores, a poeira levantando, participando de alguma forma quem estava por vir.
– “Tenho pensado tanto na Rosinha “- suspirava a mãe, saudosa- “ Não demora ela aparece por aqui”.
Bastava para o coração espocar, o sorriso abrir, a ansiedade fincar. A mãe nunca se enganava. Tia Rosa estava por chegar. E com que felicidade ela vinha e nós a recebíamos, e ao primo e as primas. O tio nem sempre lhes fazia companhia nestas andanças, mas tia Rosa e as crianças eram certeiras. Talvez não nos déssemos conta de toda a dificuldade da viagem, das horas de caminhada ao sol, das paradas às chuvas, de alguma ou outra carona. Tia Rosa sempre chegava. Choravam abraçadas ela e a mãe pelo tempo distante, choravam por saudade da mãe delas próprias, enquanto eu e as primas riamos das duas nos contagiando com aquele contentamento pesaroso todo. No dia seguinte era dia de visitar a Ana, tia que morava morro acima, um pouco mais distante. Tia Ana que sempre nos recebia com a mesa a postos, farta em doces e guloseimas que ela mesma cozia ao forno de barro. Que felicidade a das três irmãs, que mulheres lindas, de uma bondade e candura sem igual, como se amavam, se respeitavam, se ajudavam em uma união que já não existe mais. Maria Júlia, a mais séria. Temente a Deus. Achava que tudo era pecado, principalmente o não amar ao seu próximo. Coração gigante, cabia o mundo dentro dele. Tia Ana, a mais engraçada. Conversava muito na mesma medida em que cozia. Sua felicidade era receber os seus à sua mesa, sempre contando casos e causos sem parar. Cada pão- de- ló, cada suspiro de claras era sua forma de transmitir a ternura que lhe era tão inerente, ao seu convidado, sempre especial em sua concepção. Tia Rosa, a mais tímida. Lembro do seu sorriso meio envergonhado, da sua resignação frente os reveses da vida e sua determinação de sempre seguir em frente. Um anjo de luz e afetuosidade. Cada irmã com suas particularidades e semelhanças na forma simples e amorosa de entendimento do mundo.
Maria Júlia há muito se foi deixando sua lembrança no toque do sino convidando à missa dominical. Ana partiu há alguns poucos anos nos legando sorrisos quando ao sabor de quitutes gostosos. E hoje o vento suspirando, a poeira levantando, o coração batendo pesadamente…tum…tum…tum … a estrada vazia… tia Rosa não mais virá. Contudo segue em outra estrada, florida e suave, a qual a conduzirá para junto de suas irmãs. Desejo que vá feliz, com aquele sorriso acanhado que sempre teve, que se ruborize com as risadas e disparates da Ana e preste muita atenção às pregações de Julia. Sempre, sempre sorrindo como era de sua natureza afável. Que abracem-se e regozijem-se muito. E que permaneçam sempre juntas pois para amor tão grande assim não existem estradas tortuosas demais. ♥️

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Pai

Procurei entre os meus antigos pertences uma foto de meu pai e não encontrei. Uma minha com ele então? Nem pensar. Sou do tempo em que fotografia era algo raro. Venho de um lugar em que elas não tinham muita importância. Como explicar isto para uma geração que registra tudo, simultaneamente aos acontecimentos? Nem tentar. Talvez até ensaie mas…só um pouquinho: havia os retratistas profissionais era verdade, que volta e meia, porta a porta, ofereciam seus serviços. Não espero por suspiros de pena dizendo-lhes que era um luxo ao qual não nos permitíamos mas, era um luxo sim, que dispensávamos. Ademais, não existia esta felicidade escandalosa de hoje em dia e nem a vontade de esfregá-la na “face” dos amigos e vizinhos. Éramos felizes a nossa maneira, felizes em preto e branco, felizes sem edição. Sem memórias vivas ficaram então, apenas as reminiscências dos bons momentos. Para não correr o risco de ser desmascarada por uma parentela expectante, arrisco-me a dizer que restaram algumas poucas (bem poucas) amareladas fotos em família onde a solenidade se mostra tão insistentemente presente tal a seriedade com que fôramos captados. Este breve relato da “daguerreotipia” familiar serve como introdução tão somente para amenizar uma confissão de culpa: tal qual uma fotografia envelhecida as vezes a imagem de meu pai também me escapa. Confundo-a com de John Wayne nos poeirentos faroestes que assistíamos no pequeno televisor da sala, luxo este que ele, como bom provedor, fazia questão. Lembro dos olhos muito azuis me admirando enquanto eu escrevia. As vezes eles sombreavam como se ultrapassados por uma nuvem. Acho que viajavam no futuro e tristemente, ele se perdia nele, não se encontrando. Talvez seja o mesmo sentimento que me acomete quando o perco as vezes, em meu pensamento. As vezes entristeço, como hoje. Não sei se me tornei alguém que lhe trouxesse um grande orgulho atualmente, mas de alguma forma gostaria que soubesses pai que continuo escrevendo. “Sua garotinha pai, ainda escreve”, alguém lhe assopra isto? E faz-me falta, muitas vezes, seu olhar aprovador. Não aquele eternizado em uma fotografia do passado. O olhar de amor que ficou perpetuado em mim.12495052_988338824553166_1229446573299676314_n

Funeral

Retornei à casa antiga
Buscava respostas às teorias tortas
As quais eu mesma formulara
Como autopunição
Avistei ao longe o jardim
Ou o que dele restara
Não haveria reparação
As flores eram todas mortas
Bem como a poesia em mim.

AnnaClaudia
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Mise en abyme- Chá de Loucos

“Quer-me parecer que nunca falaste com o tempo”!
Em sua inocência
Ela não percebeu a ironia
Que o tempo é um coelho branco
Lembrando que nos resta tão pouco
E se ainda tardará
“É sempre hora do chá”
Já dizia
O chapeleiro louco.

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Mise en abyme- Anna Claudia Fernandes/ Out 2015
Chá de Loucos.

E nós, que mal fizemos a Deus?

Em uma exposição de pré conceitos, o longa francês “Qu’est-ce qu’on a fait au Bon Dieu?” aborda de uma forma leve e bem humorada o tema da imigração e xenofobia subsequente. Do preconceito sagrado a qual todos compartilham, sejam oprimidos ou opressores.

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Não disfarço minha predileção ao cinema francês e “Que mal eu fiz a Deus?” vem a ser mais um motivo até mesmo quando foge ao tradicional combo que tanto esperamos: filme cabeça + arte e nos vem apresentado em um formato comédia leve e despretensiosa; ainda assim, nos surpreende com uma abordagem crítica e de sutileza ímpar, levando-nos novamente a combinação esperada.

Os Verneuil tem quatro filhas e três genros no mínimo diferentes. Ao menos para o perfil idealizado por pais tão conservadores. O que Claude e Marie não imaginam é que além do convívio com diferentes etnias dentro do ambiente familiar, todas as esperanças depositadas na filha mais nova para que enfim, o tão perfeito casamento com um marido francês e católico aconteça, tendem a ruir quando eles descobrem que o não convencional pode exigir muito mais do que simplesmente aceitação. Vindica tolerância e acima de tudo respeito.

Philippe de Chauveron conseguiu o inusitado: juntar o humor com a autoanálise a qual somos induzidos a fazer. A convivência com as mais diferentes nacionalidades pode ser um tema atual aos europeus, contudo nós, em nosso dia a dia também precisamos conviver com o que nos foge a limitada visão que temos do comum. Assim, os mesmos temas recorrentes no filme são nossos velhos conhecidos. O preconceito em suas mais diversas manifestações: religiosas, culturais, raciais, étnicas ou sociais. Alfineta com vontade nossas dificuldades de aceitarmos tudo aquilo que se distancia do que convencionamos padrão. Ainda que, recorra a personagens um tanto caricatos e faça um certo abuso de cenas clichês, as espetadas alcançam o objetivo.

Qu’est-ce qu’on a fait au Bon Dieu? França- 2014
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Publicado originalmente em Obvious.

http://obviousmag.org/bodega_bay/2015/e-nos-que-mal-fizemos-a-deus.html